sexta-feira, 10 de julho de 2009

055 - Antero de Quental " OS ETERNOS MOMENTOS DE POETAS E PENSADORES DA LINGUA PORTUGUESA "

Pintura de Columbano Bordalo Pinheiro, 1889.
Museu do Chiado, Lisboa, Portugal.

*
ANTERO DE QUENTAL
Antero Tarqüinio de Quental
Nasceu a 18 de abril de 1842, signo de áries,
Ponta Delgada, Açores, Portugal.
Pai de Fernando de Quental, livreiro . . .
Tio Filipe professor universitário, avô paterno
André da Ponte, poeta e amigo de Bocage, no século
XVII Padre Bartolomeu de Quental, viveu de 1626 a 1698,
fundador da "Congregação do Oratório, em Portugal . . .
Cursou direito, na Universidade de Coimbra.
Viveu em Paris e Nova York.
" Questão Coimbrã ", foi resultado, da
causa principalmente, do livro de poesias "Odes Moderna",
era muito avançado para o seu tempo, segundo alguns
entendidos da época, em Portugal, fugia às regras
estabelecidas. . .!!!?!!!
A célebre controvérsia filosofal e intelectual, entre
António Feliciano de Castilho poeta, conceituadíssimo
no meio, e cego, que não admitia, quem infringi-se
os princípios da literatura vigente . . .!!!
Antero de Quental, escreve, "Bom senso e Bom Gosto"
e "A dignidade das letras e as literaturas oficiais",
em resposta a certas declarações, feitas em Lisboa.
Um encontro, que foi muito importante, para a literatura
portuguesa, Eça de Queiroz e Antero de Quental, na
Escadaria da "Sé Nova" em Coimbra, 1862.
Depois de Camões, é tido como o melhor poeta português.
Filiou-se ao "Cenáculo" depois "Conferências Democráticas
do Cassino Lisbonense", 1871.
"Partido dos Operários Socialistas" de Portugal, 1874.
Seu corpo, faleceu a 11 de setembro de 1891.
Estilo Realismo, Naturalista.
*
CANTOePALAVRAS
Primaveras Românticas, 1872; Odes Modernas
("A História" 384 versos em oitava rima), 1875;
Sonetos,*(exemplar na "Biblioteca Nacional de Portugal"
Lisboa), 1880(traduzido 45 vezes, em váris idiomas);
Raios de Extinta Luz, 1892(e Teófilo Braga) . . .
*
I
Vozes do mar, das árvores, do vento!
Quando às vezes, n'um sonho doloroso,
Me embala o vosso canto poderoso,
Eu julgo igual ao meu vosso tormento . . .
-
Verbo crespucular e íntimo alento
das cousas mudas; salmo misterioso;
Não serás tu, queixume vaporoso,
O susoiro do mundo e o seu lamento?
-
Um espírito habita a imensidade:
Uma ânsia cruel de liberdade
Agita e abala as formas fugitivas.
-
E eu compreendo a vossa língua estranha,
Vozes do mar, da selva, da montanha . . .
Almas irmãs da minha, almas cativas . . .
-
Não chorais, ventos, árvores e mares,
coro antigo de vozes rumorosas,
Das vozes primitivas, dolorosas
Como um pranto de larvas tumulares . . .
-
Da sombra das visões crespusculares
Rompendo, um dia surgireis radiosas
D'esse sonho e essas ânsias afrontosas,
que exprimem vossas queixas singulares . . .
-
Almas no limbo ainda da existência,
Acordareis um dia na Consciência,
E pairando, já puro pensamento,
-
Vereis as Formas, filhas da ilusão,
Cair desfeitas, como um sonho vão . . .
E acabarão por fim vosso tormento.
*
ANTERO DE QUENTAL
" Redenção "
*
II
Por mais que o mundo aclame os vão triunfadores,
Os que passam cantando e os que passam ovantes,
Os que entre a multidão vão como uns hierofantes,
Às turbas o favor e os desdéns cuciantes,
-
Não há glória ou poder, cousa que o mundo aclame,
Igual à morte obscura, erma, vil, impotente,
D'um homem justo e bom, que expira injustamente
Na miséria, no exílio, ou em cárcere infame,
Mas que aplaude a consciência - e que morre contente!
*
ANTERO QUENTAL
" Ode IX "
*
III
Eu não! ao ver-te, penso: Que agonia
E que tortura ainda não provada
Hoje me ensinará esta alvorada?
E digo: Por que nasce mais um dia?
-
Antes tu nunca fosses, luz formosa!
Antes nunca existisses! e o Universo
Fitasse inerte e eternamente imerso
Do possível na névoa duvidosa!
-
O que trazes ao mundo em cada aurora?
O sentimento só, só a consciência
D'uma eterna, incurável impotência,
Do insaciável desejo, que o devora!
-
De que são feitos os mais belos dias?
De combates, de queixas, de terrores!
De que são feitos? de ilusões, de dores,
De misérias, de mágoas, de agonias!
-
O Sol, inexorável semeador,
Sem jamais se cansar, percorre o espaço,
E em borbotões lhe jorram do regaço
As sementes inúmeras da Dor!
*
ANTERO DE QUENTAL
" Hino da Manhã "
(Poesias. . .)
*
"Antero de Quental", autor desconhecido 1864.
*
IV
Pelo caminho estreito, aonde a custo
Se encontra uma só flor, ou ave, ou fonte,
Mas só bruta aridez de áspero monte
E os sóis e a febre do areal adusto,
-
Pelo caminho estreito entrei sem susto
E sem susto encarei, vendo-os defronte,
fantasmas que surgiam do horizonte
A acometer meu coração robusto . . .
-
que sois vós, peregrinos singulares?
dor, Tédio, desenganos e Pesares . . .
Atrás d'eles a Morte espreita ainda . . .
-
Conheço-vos, Meus guias derradeiros
Sereis vós. Silenciosos companheiros,
Bem-vindos, pois, e tu, Morte, Bem-vinda!
*
ANTERO DE QUENTAL
" Em Viagem "
*
V
Depois que o dia a dia, aos poucos desmaiando,
Se foi a nuvem d'ouro ideal que eu vira erguida;
Depois que vi descer, baixar no céu da vida
Cada estrela e fiquei nas trevas laborando:
-
Depois que sobre o peito os braços apertando
achei o vácuo só, e tive a liz sumida
Sem ver já onde olhar, e em todo vi perdida
A flor do meu jardim, que eu mais andei regando:
-
Não temas pois - Oh, vem! o céu é puro, e calma
E silenciosa a terra, e doce o mar, e a alma . . .
A alma! não a vês tu? mulher, mulher! oh, vem!
*
ANTERO DE QUENTAL
" Beatrice "
*
VI
Sonhei - nem sempre o sonho é cousa vã -
Que um vento me levava arrebatado,
Através d'esse espaço constelado
Onde uma aurora eterna ri louçã . . .
-
As estrelas, que guardam a manhã,
Ao verem-me passar triste e calado,
Olhavam-me e diziam com cuidado:
Onde está, pobre amigo, a nossa irmã?
-
Mas eu baixava os olhos, receoso
Que traíssem as grandes mágoas, minhas,
E passava furtivo e silencioso,
-
Nem ousava contar-lhes, às estrelas,
Contar às tuas puras irmãzinhas
Quanto és falsa, meu bem, e indigna d'elas!
*
ANTERO DE QUENTAL
" Sonho "
Sonetos
*
VII
Tu, que dormes, espírito sereno,
Posto à sombra dos cedros seculares,
Como um levita à sombra dos altares,
Longe da luta e do fragor terreno,
-
Acorda! é tempo! o Sol, já alto e pleno,
Afugentou as larvas tumulares . . .
Para surgir do seio d'esses mares,
Um mundo novo espera só um aceno . . .
-
Escuta! é a grande voz das multidões!
São teus irmãos, que se erguem! são canções . . .
Mas de guerra . . .e são vozes de rebate!
-
Ergue-te pois, soldado do Futuro,
E dos raios de luz do sonho puro,
Sonhador, faz espada de combate!
*
ANTERO DE QUENTAL
" A Um Poeta "
Sonetos
*
VIII
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Ó areias da praia, ó rochas duras,
Que também prisioneiras aqui estais!
Entendeis vós acaso estas escuras
Razões da sorte, surda a nossos aos?
Sabê-las tu, ó mar, que te torturas
No teu cárcere imenso? e, águas, que andais
Em volta aos sorvedouros que vos somem,
Sabeis vós o que faz aqui o Homem?
-
Fronte que banha aluz - e olhar que fita
Quanta beleza a imensidão rodeia!
Da geração dos seres infinita
Mais pura forma e mais perfeita idéia!
No vasto seio um mundo se agita . . .
E um Sol, um firmamento se incendeia
Quando, ao clarão da alma, em movimento
Volve os astros do céu do pensamento!
-
E, entanto, ó largo mundo, que domina
Seu espírito imenso! ele é mesquinho
Mais que ave desvalida e pequenina,
A que o vento desfez o estreito ninho!
Quanto mais vê da esfera cristalina
Mais deseja, mais sente o agudo espinho . . .
E o círculo de luz da alma pura
É um cárcere, apenas, de tortura!
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Ó duração de sonhos! fortalezas
De fumo! rochas de ilusão a rodos!
Que é dos santos, dos altos, das grandezas,
Que inda há cem anos adoramos todos?
As verdades, as bíblias, as certezas?
Limites, formas, consagrados modos?
O que temos de eterno e sem enganos,
Deus - não pode durar mais alguns anos!
-
Tronos, religiões, impérios, usos . . .
Oh que nuvens de pó alevantadas!
Castelos de nevoeiro tão confusos!
Ondas umas sobre outras conglobadas!
Que longes que não têm estes abusos
Da forma! Tróias em papel pintadas!
Babilôlinias de névoa, que uma aragem,
Roçando, abala e lança na voragem!
-
Sobre alicerces d'ar as sociedades
Como sobre uma rocha têm assento . . .
E os cultos, as crenças, as verdades
Ali crescem, lá têm seu fundamento . . .
Ó grandes torreões, templos, cidades
Babéis de orgulho e força . . .sopre o vento
Sobre os pés do gigante que se eleva . . .
E era d'ar essa base . . . e o vento a leva!
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Porque o mundo , tão grande, é um infante
Que adormece entre cantos noite e dia,
Embalado no éter radiante,
Todo em sonhos de luz e de harmonia!
O forte Mar (e mais é um gigante)
Também tem paz e coros de alegria . . .
E o céu, com ser imenso, é serenado
Como um seio de herói, vasto e pausado.
-
Quando de grande há aí dorme e sossega:
Tudo tem sua lei onde adormece:
Tudo, que pode olhar, os olhos prega
N'algum Íris d'amor que lhe alvorece . . .
Só nós, só nós, a raça triste e cega,
Que e três palmos do chão nem aparece,
Só nós somos delírio e confusão,
Só nós temos por nome "turbilhão!"
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Só ele pode a ara sacrossanta
Erguer, e um templo eterno para todos . . .
Sim, um eterno templo e ara santa,
Mas com mil cultos, mil diversos modos!
Mil são os frutos, e é só uma a planta!
Um coração, e mil desejos doidos!
Mas dá lugar a todos a Cidade,
Assente sobre a rocha da Igualdade.
-
É d'esse amor que eu falo! e d'ele espero
O doce orvalho com que vá surgindo
O triste lírio, que este solo austero
Está entre urze e abrolhos encobrindo.
D'ele! do Amor! . . . enquanto vais abrindo,
Sobre o ninho onde choca a Unidade,
As tuas asas d'águia, Ó LIBERDADE!
*
ANTERO DE QUENTAL
" À História "(fragmentos)
Odes Modernas
*
IX
A cruz dizia à terra onde assentava,
Ao vale obscuro, ao monte áspero e mudo:
- " Que és tu, abismo e jaula, aonde tudo
Vive na dor e em luta cega e brava?
-
Sempre em trabalho, condenada escrava,
Que fazes tu de grande e bom, contudo?
Resignada, és só lodo informe e rudo;
Revoltosa, és só fogo e hórrida lava . . .
-
Mas a mim não há alta e livre serra
Que me possa igualar! . . . amor firmeza,
Sou eu só: sou a paz, tu és a guerra!
-
Sou o espírito, a luz! . . . tu és triteza,
Ó lodo escuro e vil!"- Porém a terra
Respondeu: "Cruz, eu sou a Natureza!
*
ANTERO DE QUENTAL
" Diálogo "
Sonetos
*
X
Razão, irmã do amor e da justiça.
Mais uma vez escuta a minha prece.
Á a voz de um coração que te apetece,
Duma alma livre, só a ti submissa.
-
Por ti é a poeira movediça
De astros e sóis e mundos permanece;
E é por ti que a virtude prevalece,
E a flor do heroísmo medra e viça.
-
Por ti, na arena trágica, as nações
Buscam a liberdade, entre clarões;
E os que olham o futuro e cismam, mudos.
-
Por ti, podem sofrer e não  se abatem,
Mãe de filhos robustos, que combatem,
Tendo o teu nome escrito em seus escudos!
*
ANTERO DE QUENTAL
"Hino à Razão"
*
XI
Que beleza mortal se te assemelha,
Ó sonhadora visão desta alma ardente,
Que refletes em mim teu brilho ingente,
Lá como sobre o mar o Sol se espelha?
-
O mundo é grane - e esta ânsia me aconselha
A buscar-te na terra: e eu, pobre crente,
Pelo mundo procuro um Deus clemente,
Mas a ara só lhe encontro... nua e velha...
-
Não é mortal o que eu em ti adoro.
Que és tu aqui?  Olhar de piedade,
Gota de mel em taça de venenos...
-
Pura essência das lágrimas que choro
E sonho dos meus sonhos! Se és verdade,
Descobre-te, visão, no céu ao menos!
*
ANTERO DE QUENTAL
"Ignoto Deo"
*
XII
disse ao meu coração: Olha por quantos
Caminhos vãos andamos! Considera
Agora, d'esta altura fria e austera,
Os ermos que regaram nossos prantos...
-
Pó e cinzas, onde houve flor e encantos!
E noite, onde foi luz de primavera!
Olha a teus pés o mundo e desespera,
Semeador de sombras e quebrantos!
-
Porém o coração, feito valente
Na escola da tortura repetida,
E no uso do penar tornado crente,
-
respondeu: D'esta altura vejo o Amor!
viver não foi em vão, se é isto a vida,
Nem foi demais o desengano e a dor.
*
ANTERO DE QUENTAL
"Solemnia Verba"
*
XIII
Espectros que velais, enquanto a custo
Adormeço um momento, e que inclinados
Sobre os meus sonos curtos e cansados
Me encheis as noites de agonia e susto!...
-
De que me vale a mim ser puro e justo,
E entre combates sempre renovados
disputar dia a dia à mão dos Fados
Uma parcela do saber augusto,
-
Se a minh'alma há de ver, sobre si fitos,
Sempre esses olhos trágicos, malditos!
Se até dormindo, com angústia imensa,
-
Bem os sinto verter sobre o meu leito,
Uma a uma vertersobre o meu peito
As lágrimas geladas da descrença!
8
ANTERO DE QUENTAL
"Espectros"
*
XIV
Razão, irmã do Amor e da Justiça,
Mais uma vez escuta a minha prece.
É a voz d'um coração que te apetece,
D'uma alma livre, só a ti submissa.
-
Por ti é que a poeira movediça
De astros e sóis e mundos permanece;
E é por ti que a virtude prevalece,
E a flor do heroísmo medra e viça.
-
Por ti, na arena trágica, as noções
Buscam a liberdade, entre clarões;
E os que olham o futuro e cismam, mudos,
-
Por ti, podem sofrer e não se abatem,
Mãe de filhos robustos, que combatem
Tendo o teu nome escrito em seus escudos!
*
ANTERO DE QUENTAL
 "Hino à razão"
*
XV
Nas florestas solenes há o culto
Da eterna, íntima força primitiva:
Na serra, o grito audaz da alma cativa,
Do coração, em seu combate inulto:
-
No espaço constelado passa o vulto
Do inominado Alguém, que os sóis aviva:
Mo mar ouve-se a voz grave e aflitiva
D'um Deus que luta, poderoso e inculto.
-
Mas nas negras cidades, onde solta
Se ergue, de sangue madida, a revolta,
Como incêndio que um vento bravo atiça,
-
Há mais alta missão, mais alta glória:
O combater, à grande luz da História,
Os combates eternos da Justiça!
*
ANTERO DE QUENTAL 
"Justitia Mater"
*
XVI
Ouve tu, meu cansado coração,
O que te diz a voz da Natureza:
- "Mais te valera, nu e sem defesa,
Ter nascido em aspérrima soidão,
-
Ter gemido, ainda infante, sobre o chão
Frio e cruel da mais cruel devesa,
do que embalar-te a Fada da Beleza,
Como embalou, no berço da Ilusão!
-
Mais valera à tua alma visionária
Silenciosa e triste ter passado
Por entre o mundo hostil e a turba vária,
-
(Sem ver uma só flor, das mil, que amaste)
Com  ódio e raiva e dor... que ter sonhado
Os sonhos ideais que tu sonhaste!" -
*
ANTERO  DE QUENTAL
"Voz de Outono"

*
(Mais Poemas . . ." NEGRAS CAPAS . . .Poetas de Coimbra"
pág. 195)

quinta-feira, 9 de julho de 2009

056 - " OS ETERNOS MOMENTOS DE POETAS E PENSADORES DA LINGUA PORTUGUESA "

▬▬
JÚLIO SALUSSE
Nasceu em 1872, Bom Jardim, Rio de Janeiro, Brasil.
Poeta...
Faleceu em 1948, Rio de Janeiro
*
CANTOePALAVRA
....................................
*
A vida, manso lago azul algumas
vezes, algumas vezes mar fremente,
tem sido por nós constantemente
um lago azul sem ondas, sem espumas.
-
Sobre ele, quando, desfazendo as brumas
matinais, rompe um Sol vermelho e quente,
nós dois vagamos indolentemente,
como dois cisnes de alvacentas plumas.


Um dia um cisne morrerá, por certo.
quando chegar esse momento incerto,
no lago, onde talvez a água se tisne,
-
que o cisne vivo, cheio de saudade,
nunca mais cante, nem sozinho nade,
nem nade nunca ao lado de outro cisne.
*
"Cisnes"
Júlio Salusse
▬▬

RODRIGO OTÁVIO
Rodrigo Otávio de Langgaard Meneses
Nasceu em 11 de outubro de 1866, signo de libra,
em Campinas, Estado de São Paulo, Brasil.
Doutorou-se em Direito na "Faculdade de Direito
de São Paulo", 1886. Participou, ativamente na política
brasileira. Pertenceu à "Academia Brasileira de Letras". . .
Estilo Parnasianismo
*
"Meu Jardim" Foto LuisD.




CANTOePALAVRAS
Pâmpanos, 1886; Poemas e Idílios, 1887;
Vera, 1916; Coração de Caboclo, 1924 . . .
*
Na azul e perfumada alcova em que ela dorme,
Dorme também aos pés da cama aurilavrada,
De um urso branco a pele aveludada, enorme,
De pérolas azuis e gema entressachada.
-
Sai da rubra goela hiante, escancarada,
Pontiaguda, eriçada a dentadura informe,
Guardando noite e dia a azul e perfumada
Alcova em que a gentil sultana sonha e dorme.
-
quando o Sol de manhã no leito vem beijá-la,
As pálpebras descerra, os braços estendendo
No ar, aberto o roupão de linho cor de opala.
-
Sai do leito: no quarto entorna-se um perfume,
E os olhos de esmeralda o urso crava com ciúme,
No espelho, um outro olhar, cúpido a vê-la, vendo.
*
" Na Alcova da Sultana "
Poemas e Idílios
RODRIGO OTÁVIO
▬▬
JUNQUEIRA FREIRE
Luis José Junqueira Freire
Nasceu em 1832, Salvado Estado da Bahia, Brasil.
Poeta...Patrono da "Academia Brasileira de Letras"
Faleceu em 1855, Salvador, Bahia, Brasil.
*
CANTOePALAVRAS
Elementos da Retórica Nacional; Contradições Poéticas; 
Inspirações do Claustro...


 "Natureza" Foto LuisD.
*
Arda de raiva contra mim a intriga,
Morra de dor a inveja insaciável;
Destile seu veneno detestável 
A vil calúnia, pérfida inimiga.

Una-se todo, em traiçoeira liga,
Contra mim só, o mundo miserável.
Alimente por mim ódio entranhável
O coração da terra que me abriga
-
Sei rir-me da vaidade dos humanos;
Sei desprezar um nome não preciso;
Sei insultar uns cálculos insanos.
-
Durmo feliz sobre o suave riso
De uns lábios de mulher gentis, ufanos;
E o mais que os homens são, desprezo e piso.
 *
Arda de raiva....
Junqueira Freire


"Tamanduá Bandeira, Zoológico de São Paulo, Brasil",
Foto LuisD.
▬▬

057 - " OS ETERNOS MOMENTOS DE POETAS E PENSADORES DA LINGUA PORTUGUESA "


"Represa de Guarapiranga", cidade de São Paulo, Brasil, Foto LuisD.
*
VICENTE DE CARVALHO
Vicente Augusto de Carvalho
Nasceu a 05 de abril de 1866, signo de áries,
Cidade de Santos, Estado de São Paulo, Brasil.
Formou-se em Direito , em São Paulo, 1886.
Se envolveu com política, fez parte da "Academia
Brasileira de Letras", 1909.
Estilo Parnasianismo.
Faleceu a 22 de abril de 1924, Santos, Brasil.
*
CANTOePALAVRAS
Ardentias, 1885; Relicário, 1888;
Rosa, Rosa de Amor, 1902; Poemas e Canções, 1908;
Verso e Prosa, 1909; Páginas Soltas (prosa), 1911;
Luisinha (contos). . .
*
I
" Deixa-me, fonte! " Dizia
A flor, tonta de terror.
E a fonte, sonora e fria,
Cantava, levando a flor.
-
" Deixa-me, deixa-me, fonte! "
Dizia a flor a chorar:
" Eu fui nascida no monte . . .
Não me leves para o mar ".
-
E a fonte, rápida e fria,
Com um sussurro zombador,
Por sobre a areia corria,
Corria levando a flor.
-
" Ai, balanços do meu galho,
Balanços do berço meu;
Ai, claras gotas de orvalho
Caídas do azul do céu! . . . "
-
Chorava a flor, e gemia,
Branca, branca de terror,
E a fonte, sonora e fria
Rolava, levando a flor.
-
" Adeus, sombra das ramadas,
Cantigas do rouxinol;
Ai, festas das madrugadas,
Doçuras do pôr do Sol; "
-
" Carícias das brisas leves
Que abrem rasgões de luar . . .
Fonte, fonte, não me leves,
Não me leves para o mar! " . . .
-
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
-
As correntes da vida
E os restos do meu amor
Resvalam numa descida
Como a da fonte e a da flor . . .
*
VICENTE DE CARVALHO
" A Flor e a Fonte "
Rosa, Rosa de Amor
*
II
A fieira zumbe, o piso estala, chia
O liço, range o estambre na cadeira;
A máquina dos Temos, dia a dia,
Na música monótona vozeia.
-
Sem pressa, sem pesar, sem alegria,
Sem alma, o Tecelão, que cabeceia,
Carda, retorce, estira, asseda,fia,
Doba e entrelaça, na infindável teia.
-
Treva e luz, ódio e amor, beijo e queixume,
Consolação e raiva, gelo e chama
Combinam-se e consomem-se no urdume.
-
Sem princípio e sem fim, eternamente
Passa e repassa a aborrecida trama
Nas mãos do tecelão indiferente . . .
*
VICENTE DE CARVALHO
" O Tear "
Poemas e Canções

▬▬

"Pássaro pescando", Zoológico de São Paulo, Brasil, foto LuisD.

058 - " OS ETERNOS MOMENTOS DE POETAS E PENSADORES DA LINGUA PORTUGUESA "




 "Meu Jardim" Foto LuisD.
*
ARTUR AZEVEDO
Artur Nabatino Gonçalves de Azevedo
Nasceu a 07 de julho de 1855, signo de câncer,
em São Luis do Maranhão, Estado de Maranhão, Brasil.
Membro da "Academia Brasileira de Letras", fundador . . .
Faleceu em 1908, Rio de Janeiro, Brasil.
*
CANTOePALAVRAS
Carapaças, 1871; Na Rua do Ouvidor, 1875;
Sonetos, 1876; O Dia de Finados, 1877;
Contos Possíveis, 1889; Contos em Verso, 1909;
 Horas Vagas; Rimas . . .
*
Não há no mundo quem amantes visse
Que se quisessem como nos queremos . . .
Um dia, uma questiúncula tivemos
Por um capricho, por uma tolice.
-
- " Acabemos com isto! ", ela me disse.
E eu respondi-lhe assim - " Pois acabemos! "
E fiz o que se faz em tais extremos:
Tomei do meu chapéu com fanfarrice.
-
E, tendo um gesto de desdém profundo,
Saí cantarolando . . . (Stá bem visto
Que a forma, aí, contrafazia o fundo).
-
Escreveu-me . . . Voltei. Nem Deus, nem Cristo,
Nem minha mãe volvendo agora ao mundo
Eram capazes de acabar com isto!
*
ARTUR AZEVEDO
" Arrufos "
▬▬
"Natureza" Foto LuisD.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

059 - " OS ETERNOS MOMENTOS DE POETAS E PENSADORES DA LINGUA PORTUGUESA "


ALBERTO DE OLIVEIRA
António Mariano Alberto de Oliveira
Nasceu a 28 de abril de 1857, signo de touro,
Saquarema (antigo Palmital de Saquarema), Estado
de Rio de Janeiro, Brasil. Formado em Farmácia, 1883.
Licenciado em "Filosofia e Letras", "Honoris Causa"
Universidade Nacional de Buenos Aires. Membro
da Academia de Ciências de Lisboa.
Um dos fundadores da " Academia Brasileira de Letras ".
Tendo uma vida política intensa. . .
Estilo Parnasiano (final do século XIX).
Faleceu a 19 de janeiro de 1937, Niterói, Rio de Janeiro, Brasil.
*
CANTOePALAVRAS
Canções Românticas, 1878; Meridionais, 1884;
Sonetos e Poemas, 1885; Versos e Rimas, 1895;
Poesias, 19oo; Páginas de Ouro da Poesia Brasileira, 1991;
Céu, Terra e Mar, 1914; Ramo de Árvore, 1922;
Os Cem Melhores Sonetos Brasileiros, 1932 . . .
*
I
Tal como douda garça, aos mares! Uma vela!
Uma vela! e é partir. Afronta o horror das vagas
Negras se a noite as cobre e as incha o vento, às pragas
E ao clarão e estridor do raio e da procela.
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Nem todo o equóreo abismo, entre as equóreas fragas
Ruindo, urrante e estouraz, com a espuma à fauce e aquela
Luz dos ruivos fuzis como serpentes nela,
Pode o inferno igualar que teu silêncio esmagas.
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Rompe, atira-te ao pego, as sombras lhe devassa
Menores que as do mal que no teu peito engrossas;
Talha os ventos, o oceano, as ondas sulca, e passa . . .
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Ah! talvez longe, longe, em clima estranho, ao fundo
Do horizonte, há um deserto em que dormir tu possas,
Sem o incômodo olhar dos homens e do mundo.
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ALBERTO DE OLIVEIRA
" Só "
Poesias
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II
Era um hábito antigo que ele tinha
Entrar dando com a porta nos batentes
- " Que te fez esta porta? " A mulher vinha
e interrogava . . . ele, cerrando os dentes:
-
- " Nada! Traze o jantar ". - Mas à noitinha
Calmava-se; feliz, os inocentes
Olhos revê da filha e a cabecinha
lhe afaga, a rir, com as rudes mãos trementes.
-
Uma vez, ao tornar à casa, quando
erguia a aldrava, o coração lhe fala
- " Entra mais devagar . . . " Pára. Hesitando . . .
-
Nisso nos gonzos range a velha porta,
ri-se, escancara-se, e ele vê na sala
A mulher como doida e a filha morta.
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ALBERTO DE OLIVEIRA
" A Vingança da Porta "
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III
Comigo, a sós, o espaço contemplando,
Triste e de pé no mármore da escada,
Com o róseo dedo a luminosa enfiada
Dos astros, pela noite, ias contando.
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- Vês, sobre o mar, as águas argentando,
Aquela estrela - pérola nevada?
E aquela? . . . e aquela? . . . E à tua voz amada
Novas estrelas vinham despontando.
-
E esta, do azul na transparente umbela,
Bem sobre nós a cintilar? E aquela? . . .
E aquela? . . . Olhando o límpido tesouro
-
Dos astros, reclinada no meu braço,
Cismavas . . . quando encheu no Oriente o espaço
A doce luz do plenilúnio de ouro.
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ALBERTO DE OLIVEIRA
" As Estrelas "
Poesias
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IV
Entre as ruínas de um convento
De uma coluna quebrada
Sobre os destroços, ao vento
Vive uma flor isolada.
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Através de férrea grade
Espiando ao longe e em redor,
Que olhar de amor e saudade
No cálix daquela flor!
-
Diz uma lenda que outrora
Dentre as freiras a mais bela,
Morta ao despontar da aurora,
Fôra achada em sua cela.
-
Ao irem em terra fria
O frio corpo depor,
Sobre coluna que havia
A um lado, nascera a flor.
-
E a lenda refere ainda:
Assim que o luar aparece,
Da flor animada e linda
No cálix se ouve uma prece.
-
Reza . . . E medrosa, e encolhida
A um canto, pálida a cor,
Toda no céu embebida,
Vendo-o, talvez, pobre flor!
-
Parece, tão branca e pura,
Tão franzina e desmaiada,
Uma freira em miniatura
Nas pedras ajoelhada.
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ALBERTO DE OLIVEIRA
" Flor Santa "
Poesias
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V
O musgo mais sedoso, a úsnea mais leve
Trouxe de longe o alegre passarinho,
E um dia inteiro so Sol paciente esteve
Com o destro bico a arquitetar o ninho.
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Da paina os vagos flocos cor de neve
Colhe, e por dentro o alfombra com carinho;
E armado, pronto, enfim, suspenso em breve,
Ei-lo balouça à beira do caminho.
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E a ave sobre ele as asas multicores
Estende, e sonha. Sonha que o áureo pólen
E o nêctar suga às mais brilhantes flores;
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Sonha . . . Porém de súbito a violento
Abalo acorda. Em tôrno as folhas bolem . . .
É o vento! E o ninho lhe arrebata o vento.
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ALBERTO DE OLIVEIRA
" O Ninho "
Poesias
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VI
É um velho paredão, todo gretado.
Roto e negro, a que o tempo uma oferenda
Deixou num cacto em flor ensangüentado
E num pouco de musgo em cada fenda.
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Serve há muito de encerro a uma vivenda;
Protegê-la e guardá-la, é seu cuidado;
Talvez consigo esta missão compreenda,
Sempre em seu posto, firme e alevantado.
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Horas mortas, a lua o véu desata,
E em cheio brilha; a solidão se estrela
Toda de um vago cintilar de prata;
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E o velho muro, alta a parede nua,
Olha em redor, espreita a sombra, e vela,
Entre os beijos e lágrimas da lua.
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ALBERTO DE OLIVEIRA
" O Muro "