segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

. . . A imagem, imaginária de um poeta . . .
*
Batem leve, levemente
Como quem chama por mim . . .
Será chuva? Será gente?
Gente não é certamente
E a chuva não bate assim . . .
-
É talvez a ventania;
Mas há pouco, há poucochinho,
Nem uma agulha bulia
Na quieta melancolia
Dos pinheiros do caminho . . .
-
Quem bate assim levemente
Com tão estranha leveza
Que mal se ouve, mal se sente? . . .
Não é chuva, nem é gente,
Nem é vento com certeza.
-
Fui ver. A neve caia
Do azul cinzento do Céu,
Branca e leve, bramca e fria . . .
-Há quanto tempo a não via!
E que saudades, Deus meu!
-
Olho-a através da vidraça,
Pôs tudo da cor do linho.
Passa gente e, quando passa,
Os passos imprime e traça
Na brancura do caminho . . .
-
Fico olhando esses sinais
Da pobre gente que avança
E noto, por entre os mais,
Os traços miniaturais
Duns pèzitos de criança . . .
-
E descalcinhos doridos . . .
A neve deixa inda vê-los
Primeiro bem definidos,
- Depois em sulcos compridos,
Porque não podia erguê-los . . .
-
Que quem já é pecador
Sofra tormentos, enfim!
Mas as crianças, Senhor,
Por que lhes dais tanta dor?! . . .
Por que padecem assim?! . . .
-
E uma infinita tristeza,
Uma funda turbação
Entra em mim, fica em mim presa,
Cai a neve na Natureza . . .
- E cai no meu coração.
*
AUGUSTO GIL
"Balada da Neve"
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. . . Imagem . . .
*
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. . . Reflexão de um poeta . . .
*
Ò Estrelinha do Norte
Espera por mim, que eu já vou;
Alumia-me o caminho,
Já que o Luar me enganou.
*
" A Voz do Povo "
(Mais . . . "Tovas , Provérbios, Ditados Portugueses", pág. 199 e 200.)

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

*
. . . a imagem imaginária de um poeta . . .
*
Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores
Naquelas tardes fagueiras,
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!
-
Como são belos os dias
Do despontar da existência!
Respira a alma inocência,
Como perfumes a flôr;
O mar é lago sereno
O céu um manto azulado,
O mundo um sonho dourado,
A vida um hino de amor!
-
Que auroras, que Sol, que vida
Que noites de melodia,
Naquela doce alegria,
Naquele ingênuo folgar!
O céu bordado de estrelas,
A terra de aromas cheia,
As ondas beijando a areia,
E a lua beijando o mar!
-
Oh! dias da minha infância,
Oh! meu céu de primavera!
Que doce a vida não era,
Nessa risonha manhã!
Em vez das mágoas de agora
Eu tinha nessas delicias
De minha mãe as carícias
E beijos de minha irmã!
-
Livre filho das montanhas
Eu ia bem satisfeito,
De camisa aberto o peito,
Pés descaços, braços nus,
Correndo pelas campinas
À roda das cachoeiras,
Atráz das asas ligeiras
Das borboletas azuis!
-
Naqueles tempos ditosos
ia colher as pitangas
Trepava a tirar as mangas
Brincava à beira do mar;
Rezava às Ave-Marias,
Achava o céu sempre lindo,
Adormecia sorrindo
E despertava a cantar!
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Oh! que saudades eu tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida,
Que anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores
naquelas tardes fagueiras,
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!
*
CASIMIRO DE ABREU
"Meus oito anos"
(Mais Poemas . . . "Os Eternos Momentos de Poetas e
Pensadores da Lingua Portuguesa", pág.161).
*
A Imagem . . .
*
"Aquário" Foto LuisD.
*
Reflexão de um poeta . . .
*
Para quem viaja ao encontro do Sol,
é sempre madrugada . . .
*
Helena Kolody

*

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010



*


Arte LuisD.



domingo, 5 de dezembro de 2010

. . . A imagem imaginária de um poeta . . .
*


*
O Meu Natal de Antigamente
*
Quando eu era menina(o)
não havia Pai Natal¹ nem Árvore de Natal
Armava-se o presépio com chão de musgo
rochas de cortiça virgem ervas a valer
pedrinhas de verdade
e searinhas que se semeavam em pires e latas vazias
no dia 8 de dezembro
e eram o pequeno milagre . . . o primeiro
a despontar dos grãos de trigo e a crescer todos os dias.
As criaturas do presépio eram de comprem
mas também moldei algumas em barro fresco.
Uma vez uma das minhas tias fez casas e igrejinhas de papel
e acendemos velas lá dentro
foi um deslumbramento a luz a sair pelas janelinhas!
Mas ardeu tudo de repente
desde então só a lamparina de azeite continuou a aluminar
esse parco mundo pobre.
-
No meu Natal de antigamente havia menos presentes
os meninos não exigiam esses brinquedos extrabíblicos
computadores, jogos de computadores, cêdêroms, sei lá.
Nem o Menino Jesus podia com tanto peso!
Sim, porque no meu Natal de antigamente era o Menino Jesus
que dava as prendas.
Punhamos, na véspera, o sapatinho na chaminé
mas tinhamos que ir para a cama esperar pela manhã
porque Ele só descia pela calada da noite
se ninguém estivesse à espreita
( hoje o Pai Natal não tem esses puderes).
Eu imaginava-o a saltar das palhinhas
nuzinho em pêlo
e a Nossa Senhora a agasalhá-lo logo com a sua capa.
E lá ia Ele
como um menino pobre enrolado no casaco do pai
a contentar todas as crianças do mundo.
Pai Natal, esse, foi encarregado(não sei por quem)
de dar presentes a pequenos e grandes
com o Menino Jesus tudo ficava entre os meninos
E se a prenda não agradava
a gente fazia uma careta
e até, à socapa, chamava-lhe um nome feio.
-
O Pai Natal é um palhaço cheio de postiços:
barba bigode cabeleira
até a barriga é uma almofadinha
e vai à televisão convencer-nos a comprar coisas.
Agora o Natal antecipa o Carnaval
o Menino Jesus, esse não! nunca ia à televisão
(que para dizer a verdade não existia ainda)
mas que menino de hoje trocaria o seu Pai Natal
(gerente de um supermercado de prendas)
pelo meu Menino Jesus
a tiritar nas palhas?
-
(¹ Pai Natal, em Portugal
Papai Natal, ou Noel, no Brasil).
*
TERESA RITA LOPES
"O Meu Natal de Antigamente"
(Mais Poemas . . ."Os Eternos Momentos de Poetas e Pensadores
da Lingua Portuguesa", pág. 074).
▬▬
▬ Reflexão de um Poeta ▬
*
Embora ninguém possa voltar atráz e fazer um novo começo,
qualquer um pode começar agora,
e fazer um novo fim.
*
Chico Xavier
No fim tudo dá certo, se não deu certo
é porque ainda não chegou o fim.
*
Fernando Sabino
Acerte em tudo que puder acertar.
Mas não se torture com seus erros.
*
Paulo Coelho
▬▬
▬ Aniversários Importantes ▬
*
Florbela Espanca, 08 de dezembro de 1894.
Olavo Bilac, 16 de dezembro de 1865.
Alexandre O'Neill, 19 de dezembro de 1924.
Portinari, 29 de dezembro de 1903.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

. . . a imagem imaginária de um poeta . . . .
*
Circo
*
Poeta não é gente, é bicho coisa
Que da jaula ou gaiola vadiou
E anda pelo mundo às cambalhotas,
Recordadas do circo que inventou.
-
Estende no chão a capa que o destapa,
Faz do peito tambor, e rufa, salta,
É urso bailarino, mono sábio,
Ave torta de bico e pernalta.
-
Ao fim toca a charanga do poema,
Caixa, fagote, notas arranhadas,
E porque bicho é, bicho lá fica,
A cantar às estrelas apagadas.
*
JOSÉ SARAMAGO
"Circo"
Os Poemas Possíveis
(Mais Poemas . . ."Os Eternos Momentos de Poetas e
Pensadores da Lingua Portuguesa", pág. 150).
▬ Reflexão de um Poeta ▬
*
Nossa maior tragédia é não saber o que fazer com
a Vida.
-
O espelho e os sonhos, são coisas semelhantes,
é como a imagem do homem diante de si próprio.
*
José Saramago
*
▬ Aniversários Importantes ▬
*
Jorge Sena, 02 de novembro de 1919.
Sophia de Mello B. Andresen, 06 de novembro de 1919.
Cecília Meireles, 07 de novembro de 1901.
D. Sancho I(Rei de Portugal), 11 de novembro de 1154.


. . . a imagem, imaginária de um poeta . . .

*
Primavera

*
O meu amor sózinho
É assim como um jardim sem flor
Só queria poder ir dizer a ela
Como é triste se sentir saudade.
-
É que eu gosto tanto dela
que é capaz dela gostar de mim
E acontece que eu estou mais
longe dela.
-
Que da estela a reluzir na tarde.
Estrela, eu lhe diria
Desce à terra, o amor existe
E a poesia só espera ver.
-
Nascer a Primavera.
Para não morrer
Não há amor sózinho.
É juntinho que ele fica bom
-
Eu queria dar-lhe todo o meu carinho
Eu queria ter felicidade.
É que o meu amor é tanto
Um encanto que não tem mais fim
-
E no entanto ele nem sabe que isso existe
É tão triste se sentir saudade
Amor, eu lhe direi
Amor que eu tanto procurei
-
Ah, quem me dera eu pudesse ser
A tua Primavera
E depois morrer.
*
VINÍCIUS DE MORAIS
"Primavera"
Letra da canção de Bossa-Nova
Música de Carlos Lyra.
(Mais Poemas . . . "Os Eternos Momentos de Poetas e
Pensadores da Lingua Portuguesa" pág. 80).
Reflexão de um Poeta

*
. . . Foi só um minuto
e nele coube
a eternidade
do AMOR . . .
*
Mário da Silva Brito
Aniversários Importantes

*
D. Dinis, 09 de outubro de 1261.
Vinícius de Morais, 19 de Outubro de 1913.
Pepetela, 29 de outubro de 1941.
Carlos Drummond de Andrade, 31 de outubro de 1902.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

"Arte",LuisD.

. . . a imagem, imaginária de um poeta . . .

"Arte", LuisD.


A Árvore e o Homem

*

. . . E Deus me disse: Nascerás primeiro,
serás o ar, o teto, o alimento
daquele que - meu filho verdadeiro -
receberá de ti todo o sustento!
-
E tu vieste e que contentamento
em te ofertar, pelo planeta inteiro,
calor, pão, vinho, teto e desse alento
de que és, para viver, prisioneiro!
-
Porém trocaste a vida natural,
que me ligava a ti, pelo veneno
da vida poluída artificial . . .
-
E hoje . . . destruidos, os meus restos somem
por toda a Terra . . . e meu adeus te aceno.
Mas . . . que será de ti, sem mim, pobre Homem . . .?
*
ADÉLIA VICTÓRIA FERREIRA
"A Árvore e o Homem"
Poesias do Sol
A Árvore da Serra
*
- As árvores, meu filho, não têm alma!
E esta árvore me serve de empecinho . . .
É preciso cortá-la, pois meu filho,
Para que eu tenha uma velhice calma!
-
- Meu pai, por que sua ira não se acalma?!!
Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?!!
Deus pôs almas nos cedros . . . no junquilho . . .
Esta árvore, meu pai, possui minh'alma! . . .
-
- Disse - e ajoelhou-se, numa rogativa:
"Não mate a árvore, pai, para que eu viva"
E quando a árvore, olhando a pátria serra!
-
Caindo aos golpes do machado bronco,
O moço triste se abraçou com o tronco
E nunca mais se levantou da terra!
*
AUGUSTO DOS ANJOS
"A Árvore da Serra"
▬ Reflexão de um Poeta ▬
*
Se vivo, sei que não sonho
Se sonho, sei então que vivo . . .
*
Mário da Silva Brito
▬ Aniversários Importantes ▬
*
António Sardinha, 09 de setembro de 1888.
Ferreira Gullar, 19 de setembro de 1930.
Bocage, 15 de setembro de 1765.
Guerra Junqueira, 17 de setembro de 1850.
Plinio Marques, 29 de setembro de 1935.

. . . a imagem, imaginária de um poeta . . .

"Arte", LuisD.
*
"Ida e Volta em Portugal"
*
Olival de prata,
Veludosos pinhos,
clara madrugada,
dourados caminhos,
lembrai-vos da graça
com que os meus vizinhos,
numa cavalgada,
com frutas e vinhos,
lenços de escarlata,
cestas e burrinhos,
foram pela estrada,
assustando os moinhos
com suas risadas,
pondo em fuga cabras,
ventos passarinhos . . .
-
Aí, como cantavam!
Aí, como riam!
-
Seus corpos - roseiras.
Seus corpos - diamantes.
-
Ora vamos ao campo colher amoras
e amores
A amar, amadores amantes!
-
Olival de prata,
Veludosos pinhos,
pura vésper, clara
silentes caminhos,
lembrai-vos da pausa
com que os meus vizinhos
vieram pela estrada.
Morria nos moinhos
o giro das asas.
Ventos, passarinbhos,
árvores e cabras,
tudo estacionava,
As flores faltavam
sobravam espinhos.
-
Aí, como choram!
Aí como gemiam!
-
Seus corpos - granito.
Seus olhos - cisternas.
-
Este é o campo sem fim de onde não retornam
ternuras!
Entornai-vos, ondas eternas!
*
CECÍLIA MEIRELES
"Ida e Volta em Portugal"
(Mais Poemas . . . "Os Eternos Momentos de Poetas e Pensadores
da Lingua Portuguesa", pág. 075).
- Reflexão de Poeta , Pensador -
*
Saudade do que fui, do que não sou, do que hei-de ser . . .
*
Joaquim Paço d'Arcos
- Aniversários Importantes -
*
Zeca Afonso(José Afonso), 02 de agosto de 1929.
Miguel Torga, 12 de Agosto de 1907.
António Nobre, 16 de agosto de 1867.
Décio Pignatari, 20 de agosto de 1927.