sábado, 25 de julho de 2009

043 - " OS ETERNOS MOMENTOS DE POETAS E PENSADORES DA LINGUA PORTUGUESA "


JOÃO DE DEUS
João de Deus Nogueira Ramos
Nasceu a 08 de março de 1830, signo de peixes,
em S. Bartolomeu de Messines, Província de Algarve, Portugal.
Estudou na Universidade de Coimbra Direito, 1849 a 1859, viveu
toda a boémia das ruas estreitas da cidade, viajou muito, escreveu
para vários jornais, se envolveu com política, mas na realidade
foi um grande poeta . . .
*
CANTOePALAVRAS
Pomba; Flores do Campo, 1868; Folhas Soltas, 1875;
Prosas, 1898 . . .
*
I
A vida é o dia de hoje,
A vida é ai que mal soa,
A vida é sombra que foge,
A vida é nuvem que voa;
-
A vida é sonho tão leve
Que se desfaz como a neve
E como o fumo se esvai:
A vida dura um momento,
Mais leve que o pensamento,
A vida leva-a o vento,
A vida é folha que cai!
-
A vida é flor na corrente,
A vida é sopro suave,
A vida é estrela cadente,
Voa mais leve que ave:
Nuvem que o vento nos ares,
Onda que o vento nos mares,
Uma após outra lançou,
A vida - pena caída
Da asa de ave ferida -
De vale em vale impelida
A vida o vento a levou!
*
JOÃO DE DEUS
" A Vida " (trecho)
Campo de Flores
*
II
Uivara de amor a fera bruta
Que pela grenha te sentisse a mão;
E eu não sou fera, pomba! espera, escuta;
Eu tenho coração!
-
Não é mais preto o ébano, que as tranças
Que adornam o teu colo sedutor!
Ai não me fujas, pomba! que me cansas!
Não fujas, meu amor!
-
A mim nasceu-me o Sol, rompeu-me o dia
Da noite escura de olhos tais, mulher!
Não me apagues a luz que me alumina,
Senão quando eu morrer!
-
Eu não te peço a ti que as mãos de neve,
Os dedos afusados dessas mãos,
Me toquem estas minhas nem de leve . . .
Seriam rogos vãos!
-
Não te peço que os lábios nacarados
Me deixem esses dentes alvejar,
Trocando, num sorriso, os meus cuidados
Em êxtase sem par!
-
Mas uivando de amor a bruta fera
Que pela grenha te sentisse a mão . . .
Eu não sou fera, pomba! escuta, espera!
Eu tenho coração!
*
JOÃO DE DEUS
" Espera "
Campo de Flores
*
III
Não sou eu tão tola,
Que caia em casar;
Mulher não é rola.
Que tenha um só par: Eu tenho um moreno,
Tenho um de outra cor,
Tenho um mais pequeno,
Tenho outro maior.
-
Que mal faz um beijo,
Se apenas o dou,
Desfaz-se-me o pejo,
E o gosto ficou? Um deles por graça
Deu-me um, e depois,
gostei da chalaça,
Paguei-lhe com dois.
-
Abraços, abraços
Que mal nos farão?
Se Deus me deu braços,
Foi essa a razão: Um dia que o alto
Me vinha abraçar,
fiquei-lhe de um salto
Suspensa no ar.
-
Vivendo e gozando,
Que a morte é fatal,
E a rosa em murchando
Não vale em real: Eu sou muito amada,
E há muito que sei
Que Deus não fez nada
Sem ser para quê.
-
Amores, amores,
Deixá-los dizer,
Se Deus me deu flores,
Foi para as colher: Eu tenho um moreno,
Tenho um de outra cor,
Tenho um mais pequeno,
Tenho outro maior
*
JOÃO DE DEUS
"Amores, Amores"
*
IV
vi o teu rosto lindo,
Esse rosto sem par;
Contemplei-o de longe mudo e quedo
como quem volta do áspero degredo
E vê ao ar subindo
O fumo do seu lar!
-
Vi esse olhar tocante,
De um fluido sem igual,
Suave como lampada sagrada,
Benvindo como a luz da madrugada,
Que rompe ao navegante
Depois do temporal!
-
Vi esse corpo de neve,
Que parece que vai
Levado como o Sol ou como a lua
Sem encontrar beleza igual à sua;
Majestoso e suave,
Que surpreende e atrai!
-
Atrai e não me atrevo
A contemplá-lo bem;
Porque espalha o teu rosto uma luz santa,
Uma luz que me prende e que me encanta
Naquele santo enlevo
De um filho em sua mãe!
-
Tremo, apenas pressinto
A tua aparição;
E se me aproximasse mais, bastava
Pôr os olhos nos teus, ajoelhava!
Não é amor, que eu sinto,
É adoração!
-
que asas previdentes
Do anjo tutelar
Te abriguem sempre à sombra pura!
A mim basta-me só esta ventura,
De ver que me consentes
Olhar de longe...olhar!
*
JOÃO DE DEUS
"Adoração"
*
V
Na marcha da vida
Que vai a voar
Por essa descida
Caminho do mar.
-
Caminho da morte
Que me há de arrancar
O grito mais forte
Que eu posso exalar;
-
O aí da partida
Da pátria, do lar,
Dos meus e da vida,
Da terra e do ar;
-
Já perto da onda
Que me há de tragar,
Embora se esconda
No fundo do mar.
-
De noite e de dia
Me alveja no ar
O fumo que eu via
Subir do meu lar!
-
Que sonhos doirados
Me estão a lembrar!
Mas tempos passados
Não podem voltar!
-
Carreira da vida,
Que vás a voar
Por esta descida
Vai mais devagar,
-
Que eu vou deste mundo,
Talvez, descansar,
E nunca do fundo
Dos mares voltar!...
*
JOÃO DE DEUS
"Tristezas"
*
( Mais Poemas . . . " . . . Donde Borbota, minha Saudade, pág. 194 . . " )
PEDRO HOMEM DE MELLO
Pedro da Cunha Pimentel Homem de Mello
Nasceu em 1904, na cidade do Porto, Portugal.
Doutorou-se em Direito na Universidade de Lisboa.
Poeta extremamente regionalista e folclorista . . .
*
CANTOePALAVRAS
Caravela ao Mar, 1934; Segredo, 1939; Pecado, 1942;
Principe Perfeito, 1944; Bodas Vermelhas, 1947;
Misere, 1948; Adeus, 1951; Os Amigos Infelizes, 1952;
O Rapaz da Camisola Verde, 1954; Grande, Grande Era
a Cidade, 1955; Há uma Rosa na Manhã Agreste, 1964;
Povo que Lavas no Rio, 1969; Fandangueiro, 1971;
Cartas de Inglaterra, 1973; Ecce Homo, 1974; Pedro, 1975 . . .
*
Naquele branco navio
Que ao longe parece fumo,
Que as ondas do mar salgado
Parecem deixar sem rumo,
Sou eu quem vai embarcado.
Província! Minha província
Como agora me lembrais!
Cheiro da terra molhada
Resina dos pinheirais!
Província! Minha Província!
Arga! Bonança! Peneda!
Formariz e Portuzelo!
Abelheira e Pomarchão!
Ai Ponte de Mantelais!
Aldeia de Verdoejo!
Ai S. Miguel de Frontoura!
Friestas! Paçô! Venade!
Vilar de Moiros! Carreço!
Santa Cristina de Alfife!
E lá no fundo Cabanas . . .
rio Minho! Rio Coura!
Rio de Ponte do Lima!
Rio de Ponte da Barca!
(O mar começa Em Vi-Ana . . .)
Ai! a Torre de Quintela
Mai-la da Glória! Bretiandos!
Ai Paço do Cardido!
Nossa Senhora de Aurora!
Alminhas de Além da Ponte!
Ai Cruzeiro da Matança!
Ai! as árvores da Gelfa!
Bruxarias e ladrões . . .
Certa mão branca nos muros . . .
Vozes na casa deserta . . .
Ai! o vento! A noite! o medo!
E a madrugada? E os poentes?
E as rusgas? E as romarias?
Mocidade! Mocidade!
Capelinha de S. Bento!
Carreirinhos ao luar . . .
( Por quantos deles não vão
Os homens à perdição
Que logo à morte vai dar?)
Ai! leiras de milho alto!
Videiras! Ai videirinhas!
Canções na pisa do vinho!
Toadilhas de aboiar!
Esfolhadas! Esfolhadas!
Ai! Bailaricos na praia
Pelas cortas do argaço!
Tiranas! Viras e gotas!
Verde Gaio! Verde Gaio!
Minha vila bréjeira!
Minha harmônica tombada!
Como agora me lembrais!
E aquele pinheiro manso
Ao dar a volta da estrada?
E aqueles beijos contados
Nos dedos daquela mão?
E as ondas do mar baloiçam
Já não sei que embarcação . . .
E aquele branco navio
Que ao longe parece fumo,
Que as ondas do mar salgado
Parecem deixar sem rumo,
(Aquele branco navio!)
É vida humana. Pecado
Maior do que o mar salgado.
Que o mar, sem ele é vazio!
*
PEDRO HOMEM DE MELLO
"Degredo"
Pecado

quinta-feira, 23 de julho de 2009

044 - "OS ETERNOS MOMENTOS DE POETAS E PENSADORES DA LINGUA PORTUGUESA "

Foto "Meu Jardim" LuisD


MIA COUTO
António Emilio Leite Couto
Nasceu a 05 de julho de 1955, signo de câncer,
na cidade da Beira, Província de Sofala, Moçambique, África.
Filho de emigrantes portugueses.
Estudou Biologia(especialidade Ecologia), na "Universidade
Eduardo Modlane". . .
Prémios
Prémio " Vergilio Ferreira ", 1999; Prémio Literário
" Mário António ", 2000; Prémio "União Latina de Literaturas
Românicas ", 2007; Prémio " Passo Fundo Zaffari e Bourbon de
Literatura ", 2007.
*
CANTOePALAVRAS
Vozes Anoitecidas(conto), 1986; Cada Homem é uma
Raça(conto), 1990; Terra Sonâmbula(romance), 1992;
Varanda do Frangipani(romance), 1996;
Mal me Quer(romance), 1998; Raiz de Orvalho e outros
Poemas, 1999; O Último Voo do Flamingo, 2000;
O Gato e o Escuro(romance), 2001;
O País da Queixa Andar(crônica), 2003;
A Chuva Pasmada(romance), 2004;
O Fio das Missangas(conto), 2004; O Outro Pé da
Sereia(romance), 2006; O Beijo da Palavrinha(romance), 2006;
Venenos de Deus, 2008; Guerreiro de Esperas . . .
*
I
Entre o desejo de ser
e o receio de parecer
o tormento da hora cindida.
-
Na desordem do sangue
a aventura de sermos nós
restitui-nos ao ser
que fazemos de conta que somos.
*
MIA COUTO
" Ser, Parecer "
*
II
Estou
E num breve instante
Sinto tudo
Sinto-me tudo
-
Deito-me no meu corpo
E despeço-me de mim
Para me encontrar
No próximo olhar
-
Ausento-me da morte
não quero nada
eu sou tudo
respiro-me até à exaustão
-
Nada me alimenta
porque sou feito de todas as coisas
e adormeço onde tombam a luz e a poesia.
-
A vida (ensinaram-me assim)
Deve ser bebida.
*
MIA COUTO
" A Vida Deve Ser Bebida "
*
III
À ternura pouca
Me vou acostumando
enquanto me adio
servente de danos e enganos
-
Vou perdendo morada
na súbita lentidão
de um destino
que me vai sendo escasso.
-
Conheço a minha morte
Seu lugar esquivo
Seu acontecer disperso.
-
Agora
Que mais
me poderei vencer?
*
MIA COUTO
" Destino "
Raiz de Orvalho
*
O tempo é um ser que engravida antes mesmo de nascer.



quarta-feira, 22 de julho de 2009

045 - António Nobre " OS ETERNOS MOMENTOS DE POETAS E PENSADORES DA LINGUA PORTUGUESA "


ANTÓNIO NOBRE
António Pereira Nobre
Anto (pseudónimo)
Este pseudónimo foi dado pela professora inglesa
Miss Charlotte.
Nasceu, a 16 de agosto de 1867, signo de leão,
na cidade do Porto, Portugal.
Cursou o primeiro ano de Direito,
na Universidade de Coimbra.
Morou na "Torre de Anto", em Coimbra.
Torre de origem Medieval.
Viveu em Paris.
Integrou o grupo academico " Os Insubmissos"
dirigido por Eugênio de Castro.
Homenagens:
Busto de bronze a António Nobre, escultor João
Machado Filho, 1930.
Em 1997, é lançada uma revista chamada "Anto"
homenagem a António Nobre . . .
Seu corpo , faleceu a 18 de agosto de 1900, Carreiros, Foz do Rio Douro, Portugal.
Estilo Simbolismo
*
CANTOePALAVRAS
Só, 1892; Despedidas, 1902;
Primeiros Versos, 1921; Cartas Inéditas, 1934 . . .
*
I
Falhei na Vida. Zut! Ideias caídos!
Torres por terra! As árvores sem ramos!
Ó meus Amigos! Todos nós falhámos . . .
Nada nos resta. Somos uns perdidos.
-
Choremos, abracemo-nos, unidos!
Que fazer? Porque não nos suicidamos?
Jesus! Jesus! Resignação . . .Formamos
No Mundo, o clautro-pleno dos Vencidos.
-
Troquemos o burel por esta capa!
Ao longe, os sinos místicos da Trapa
Clamam por nós, convidam-nos a entrar:
-
Vamos semear o pão, podar as uvas,
Pegai na enxada, descalçai as luvas,
Tendes bom corpo, Irmãos! Vamos cavar!
*
ANTÓNIO NOBRE
" Sonetos "
*
II
Ó Virgens que passais, ao Sol-poente,
Pelas estradas êrmas, a cantar!
Eu quero ouvir uma canção ardente,
Que me transporte ao meu perdido Lar.
-
Cantai-me, nessa voz onipotente,
O Sol que tomba, aureolado o Mar,
A fartura da seara reluzente,
O vinho, a Graça, a formosura, o luar!
-
Cantai! cantai as límpidas cantigas!
Das ruínas do meu Lar desaterrai
Todas aquelas ilusões antigas.
-
Que eu vi morrer num sonho, como um ai.
Ó suaves e frescas raparigas,
Adormecei-me nessa voz . . . Cantai!
*
ANTÓNIO NOBRE
" Sonetos "
*
III
Ora isto, senhores, deu-se em Trás-os Montes,
Em terras de Borba, com torres e pontes.
-
Português antigo, do tempo da guerra,
Levou-o o Destino pra longe da terra.
-
Passaram os anos, a Borba voltou,
Que linda menina que, um dia, encontrou!
-
Que linhas fidalgas e que olhos castanhos!
E, um dia, na igreja correram os banhos.
-
Mais tarde, debaixo dum signo mofino,
Pela Lua Nova, nasceu um menino.
-
Ó mães dos Poetas! sorrindo em seu quarto,
Que são virgens antes e depois do parto!
-
Num berço de prata, dormia deitado,
Três moiras vieram dizer-lhe o seu fado.
-
( E abria o menino seus olhos tão doces):
"Serás um Príncipe! mas antes . . . não fôsses".
-
Sucede, no entanto, que o outono veio
E, um dia, ela resolve ir dar um passeio.
-
Calçou as sandálias, toucou-se de flores,
Vestiu-se de Nossa Senhora das Dores:
-
" Vou alí adiante, à Cova, em berlinda,
António, e já volto . . . " E não voltou ainda.
-
Vai o esposo, vendo que ela não voltava,
Vai lá ter com ela, por lá se quedava.
-
Ó homem egrério! de estirpe divina,
De alma de bronze e coração de menina!
-
Em vão corri mundos, não vos encontrei;
Por vales que fôra, por eles voltei.
-
E assim se criou um anjo, o Diabo, o lua;
Aí corre o seu fado! a culpa não é sua!
-
Sempre é agradável ter um filho Virgílio,
Ouvi estes carmes que eu compus no exílio,
-
Ouvi-os vós todos, meus bons portugueses!
Pelo cair das folhas, o melhor dos meses.
-
Mas, tende cautela, não vos faça mal . . .
Que é o livro mais triste que há em PORTUGAL!
*
ANTÓNIO NOBRE
" Memória "
*
IV
Não tarda a sombra, aí, Vai alto o Sete-Estrelo
São horas dela vir. Minha alma, atende!
Que já a Lua, a sentinela, rende
Na esplanada do céu, às portas do Castelo . . .
-
Oiço um rumor: talvez . . . Ei-la, é ela: ao longe, avisto
Seu vulto em flor: postas as mãos no seio,
Com o cabelo separado ao meio,
Todo caído para trás, como o de Cristo!
-
Sorri. Que linda vem, Jesus! Que bem vestida!
Quantas lembranças deste peito arranco!
Foi assim que primeiro a vi, de branco,
Foi nesse traje que ela sempre andou, em vida!
-
Que luz projecta! Que esplendor! Parece dia!
Os galos cantam, anunciando a aurora . . .
Ide deitar-vos que ainda não é a hora,
Dorme teu sono, sossegada, ó cotovia!
-
Mas vós, ó pedras, afaitai-vos, que ela passa!
Silêncio, rouxinóis, eu quero ouvi-la . . .
Terá ainda a mesma voz tranquila?
Ah! ainda é o mesmo o seu andar, cheio de Graça . . .
-
Mas ao passar por mim, como dalgum perigo,
Foge, (Talvez, já tarde . . .) Ó Clara!
Nuvem! Fantasma! Ouve-me! Pára! . . .
E oiço a voz dela num murmúrio:
" Anda comigo . . ."
*
ANTÓNIO NOBRE
" A Sombra "
*
V



Hoje, mais nada tenho que esta
Vida claustral, bacharelática, funesta,
Numa cidade assim, cheirando, essa indecente,
Por toda a parte, desde a ALTA à BAIXA, a lente!
E ao pôr do Sol, no CAIS, contemplando o MONDEGO,
Honestos bacharéis são postos em sossego
E mal a CABRA bala aos Ventos os seus ais,
"Speech" de quarto de hora em palavras iguais,
Os tristes bacharéis recolhem às herdades,
Como na sua aldeia, ao baterem Trindades.
Bem me dizias tu, como que adivinhando
O que isto para mim seria, Manuel, quando
O ano passado, vim contra tua vontade
Matricular-me, aí nessa UNIVERSIDADE:
"Anto não vás . . . " dizias tu. Eu, fraco vim.
Mas, certamente, é natural, não chego ao fim.
Ah quanto fora bem melhor a formatura,
Na Escola Livre da Natureza, Mãe pura!
Que óptimas prelecções as prelecções modernas,
Cheias de observação e verdades eternas,
Que faz diariamente o Prof. Oceano!
Já tinha dado todo o Coração Humano,
Manuel, faltava um ano só para acabar
Meu curso de Psicologia com o Mar.
Porque troquei pela COIMBRA de avelã
Essa Escola sem par, cujo Reitor é Pã?
Talvez . . .preguiça, eu sei . . .A CABRA é a cotovia:
As aulas lá, começam, mal aponta o dia!
-
Era a distância, o além, que me impressionava:
Tinha o mistério do Sol-pôr, duma esperança.
Mas, mal cheguei(que espanto! eu era uma criança)
Tudo rolou no solo! A TASCA DAS CAMELAS
Para mim era um sonho, o céu cheio de estrelas:
Nossa Senhora a dar de cear aos estudantes
Por 6 e 5! Mas ah! foi-se a Virgem dantes
Tia Camela . . . só ficou a camelice.
-
Contudo, em meio desta fútil coimbrice,
Que lindas coisas a lendária COIMBRA encerra!
Que paisagem lunar que é mais doce da Terra!
Que extraordinárias e medievas raparugas!
E o rio? e as fontes? e as fogueiras? e as cantigas?
As cantigas! Que encanto! Uma diz-te respeito,
Manuel, é um sonho, é um beijo, é um amor-perfeito
Onde o luar gelou: "Manuel! tão lindas moças!
Manuel! tão lindas são . . ."
Que pena que não ouças!
-
O que, ainda mais, nesta COIMBRA de salgueiros
Me vale, são os meus alegres companheiros
De casa, Ao pé deles é sempre meio-dia:
Para isso basta entrar o Mário da Anadia.
Até a Morte é branca e a Tristeza vermelha
E riem-se os rasgões desta batina velha!
Conheces o Fernando? a Graça que ele tem!
Dá ainda uns ares de Fr. Gil de Santarém . . .
Pálido e loiro, em si toda uma Holanda canta
Teresa de Jesus vestida de rapaz . . .
Porque não vens, Manuel, ungir-te desta Paz?
-
Vem a COIMBRA. Hás-de gostar, sim, meu Amigo.
Vamos! Dá-me o teu braço e vem dai comigo:
Olha . . .São os GERAIS, no intervalo das aulas.
Bateu o quarto. Vê! Vêm saindo das jaulas
Os ESTUDANTES, sob o olhar pardo dos lentes.
Ao vê-los, quem dirá que são os descendentes
Dos Navegantes do século XVI?
Curvam a espinha, como os áulicos aos Reis!
E magos! tristes! de cabeça derreada!
Ah! como hão-de, amanhã, pegar em uma espada!
- E os DOUTORES? - Aí os tens, graves, à porta.
Porque te ris? Olha-los tanto . . .Que te importa?
Há duas excepções: o mais, são todos um.
Quaresma de Alma, sexta-feira de jejum . . .
Não quero entanto, meu Manuel, que te vás embora
Sem ver aquele amor que a minha alma adora:
Olha acolá. Gigante, altivo como um cedro
Olhando para mim com ternura: é o meu Pedro Penedo! . . . .
*
1888 a 1890
*
ANTÓNIO NOBRE
" Carta a Manuel " (fragmento)
*
VI
Vem entrando a barra a galera " Maria "
Que vem de tão longe, e tão linda que vem!
Toca em terra o sino pra missa do dia,
Em frente, em Santa Maria de Belém!
-
Mareantes trigueiros, no alto dos mastros,
Ai dobram as velas; não são mais precisas!
Ai que lindas eram, às luas e aos astros!
Que doidas, aos ventos! que meigas, às brisas!
-
Desdobra as amarras! apresta a fateixa!
Pois todos em breve a nau vão deixar
Ó terra! que saudade a de quem te deixa;
Ó terra! pela aventura do alto mar!
-
Entra o piloto e abraçam-se estes e aqueles,
Abraçam-se e riem tanto à vontade . . .
Abraços que levam almas dentro deles,
Sorrisos de bocas que falam verdade!
-
Só as entende(capitães, não as sentis)
Quem, algum dia, passou as águas salgadas,
Quem, um dia, as passou numa hora infeliz,
Quem, um dia, as passou, com as frontes curvadas.
-
E " Maria " vai indo pelo tEJO acima,
E cisma Anrique: - Que lindo PORTUGAL! -
Vêm as Ninfas . . . Vai uma dá-lhe uma rima,
Vai outra(gostam dele) e vai faz-lhe um sinal.
-
E Anrique cisma: - Quem te não viu ainda!
Ó minha LISBOA de mármore! LISBOA
De ruínas e de glórias! Tu és linda
Entre as cidades mais lindas, ó LISBOA! -
-
Ó minha LISBOA, com oiros tão constantes
Pelas serras e céus e pelo rio! com seus
Jerônimos dos Poetas e Mareantes!
LISBOA branca de João de Deus!
*
ANTÓNIO NOBRE
" O Regresso de Anrique a Portugal "
Despedidas
*
VII
E a vida foi, e é assim, e não melhora.
Esforço inútil, crê! Tudo é ilusão...
Com uma taça, ou um punhal na mão!
Quantos não cismam nisso mesmo a esta hora?
-
Mas a Arte, o Lar, um filho, António? Embora!
Quimeras, sonhos, bolhas de sabão.
E a tortura do além e quem lá mora!
Isso é, talvez, minha única aflição...
-
Toda a dor pode suporta-se, toda!
Mesmo a da noiva em plena boda,
Que por mortalha leva... essa que traz...
-
Mas uma não: é a dor do pensamento!
Ai quem me dera entrar nesse convento
Que há além da Morte e que se cham a Paz.
*
ANTÓNIO NOBRE
"Paz!"
*
VIII
Tombou da haste a flor da minha infância alada,
Murchou na jarra de oiro o pudico jasmim:
Voou aos altos Céus a pomba enamorada
Que d'antes estendia as asas sobre mim.
-
Julguei que fosse eterna a luz dessa alvorada,
E que era sempre dia, e nunca tinha fim
Essa visão de luar que vivia encantada,
Num castelo de prata embutido a marfim!
-
Mas, hoje, as pombas de oiro, aves da minha infância,
Que me enchiam de Lua o coração, outrora,
Partiram e no Céu evolam-se, à distância!
-
Debalde clamo e choro, erguendo aos Céus meus ais;
Voltam na asa do Vento os que a alma chora,
Elas, porém, Senhor! elas não voltam mais...
*
ANTÓNIO NOBRE
"Menino e Moço"

( Mais Poemas . . . "Negras Capas . . . Poetas de Coimbra", 195;
"CANTO . . . os cantos", pág. XXXVIII ).
*
POETAS QUE FALAM DE ANTÓNIO NOBRE
*
Manuel Bandeira
*
Tu que penaste tanto e em cujo canto
Há a ingenuidade santa do menino;
Que amaste os choupos, o dobrar do sino,
E cujo pranto faz correr o pranto:
-
Com que magoado olhar, magoado espanto
Revejo em teu destino o meu destino!
Essa dor de tossir bebendo o ar fino,
A esmorecer e desejando tanto . . .
-
Mas tu dormiste em paz como as crianças.
Sorriu a Glória às tuas esperanças
E beijou-te na boca . . .O lindo som!
-
Quem me dará o beijo cobiço?
Foste conde aos vinte anos . . . Eu, nem isso . . .
Eu, não terei a Glória . . . nem fui bom.
*
MANUEL BANDEIRA
"A Antonio Nobre"
A Cinza das Horas
(Mais Poema . . ."Os Eternos Momentos de Poetas e
Pensadores da Lingua Portuguesa" pág. 181).
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