domingo, 5 de julho de 2009

060 - Fernando Pessoa " OS ETERNOS MOMENTOS DE POETAS E PENSADORES DA LINGUA PORTUGUESA "

* * * * * Foto "Busto de Fernando Pessoa"
Homenagem da Fundação Eng. António de
Almeida, Porto Portugal. Centro de Estudos, Academia Lusíada
Está no Largo Mestre de Aviz, São Paulo, Brasil.
LuisD.
*
FERNANDO PESSOA
Fernando António Nogueira Pessoa
Nasceu a 13 de junho de 1888, signo de gêmeos,
em Lisboa, Portugal.
Orfão de pai, aos cinco anos, morou na África do Sul,
ainda jovem. Participou em várias revistas, como
"Centauro", "Athena", "Presença", "Águia"(1905),
um dos fundadores de "Orpheu",1915, com a participação
de Almada Negreiros e outros. Revista trimestral.
Um dos mais importantes iniciadores do Movimento Modernista.
Seu corpo, faleceu em Lisboa, Portugal a 20 de novembro de 1935.
*
Homenagens: Escultura em bronze " Café Brasileira "
Lisboa, Portugal; Busto, no Largo Mestre de Aviz,
perto do Parque do Ibirapuera, São Paulo, Brasil.
Caricatura, 1915, e Pintura, 1954, por Almada Negreiros.
Prémio "Antero de Quental", com "Mensagem".
Universidade "Fernando Pessoa".








*

CANTOePALAVRAS
Sonnets e inscriptions . . .
Aviso por causa da Moral; Interregno Defesa;
Justificação da Ditadura Militar em Portugal;
Mensagem, 1934; Quaresma(conto policial) . . . Criação de Almada Negreiros

*
I
Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada.
Estudar é nada.
O Sol doira
Sem literatura.
-
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa . . .
-
Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.
Quando é melhor, quando há bruma,
Esperar por Dom Sebastião,
Quer venha ou não!
-
Grande é a poesia, a bondade e as danças . . .
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o Sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.
-
O mais do que isto É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca . . .
*
FERNANDO PESSOA
"Liberdade"
*
II
Passa uma borboleta por diante de mim
E pela primeira vez no Universo eu reparo
Que as borboletas não têm cor nem movimento,
Assim como as flores não têm perfume nem cor.
A cor é que tem cor nas asas da borboleta,
No movimento da borboleta o movimento é que se move,
O perfume é que tem perfume no perfume da flor.
A borboleta é apenas borboleta
E a flor é apenas flor.
*
FERNANDO PESSOA
" XL "
Alberto Caeiro
*
III
Não só vinho, mas nele o olvido, deito
Na taça: serei ledo, porque a dita
É ignara. Quem, lembrando
Ou prevendo, sorria?
Dos brutos, não a vida, senão a alma,
Consigamos, pensando; recolhidos
No impalpável destino
Que não 'spera nem lembra.
Com mão mortal elevo à mortal boca
Em frágil taça o passageiro vinho,
Baços os olhos feitos
Para deixar de ver.
*
FERNANDO PESSOA
" Sem titulo"
Ricardo Reis
*
IV
O poeta é fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
-
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
-
E assim nas calhas de roda
gira, a entreter a razão,
esse comboio de corda
Que se chama o coração.
*
FERNANDO PESSOA
"Autopsicografia"
Cancioneiro
*
V
Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã . . .
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não . . .
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjetividade objetiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico . . .
Esta espécie de alma . . . .
Só depois de amanhã . . . .
Hoje quero preparar-me,
Quero prepara-me para pensar amanhã no dia seguinte. . .
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos . . .
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã . . .
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro . . .
-
Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã . . .
Quando era criança o circo de domingo divertia-me toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância . . .
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital. . .
Mas por um edital de amanhã . . .
Hoje quero dormir, redigirei amanhã . . .
Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que bem o espetáculo . . .
Antes não . . .
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.
Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã . . .
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã . . .
sim, talvez só depois de amanhã . . .
-
O porvir
Sim, o porvir . . .
*
FERNANDO PESSOA
"Adiamento "
Alvaro Campos
*
VI
Ó sino da minha aldeia,
dolente na tarde calma,
Cada tua badalada
Soa dentro da minha alma;
-
E é tão lento o teu soar,
Tão como triste da vida,
Que já a primeira pancada
Tem o som de repetida.
-
Por mais que me tanjas perto
Quando passo, sempre errante;
És para mim como um sonho:
soas-me na alma distante . . .
-
A cada pancada tua,
Vibrante no Céu aberto,
Sinto mais longe o passado,
Sinto a saudade mais perto.
*
FERNANDO PESSOA
" Impressões do Crepúsculo "
*
VII
O meu olhar azul como o céu
É calmo como a água ao Sol.
É assim, azul e calmo,
Porque não interroga nem se espanta . . .
-
Se eu interrogasse e me espantasse
Não nasciam flores novas nos prados
Nem mudaria qualquer cousa no Sol de modo a ele ficar mais belo . . .
-
(Mesmo se nascessem flores novas no prado
E se o Sol mudasse para mais belo,
Eu sentiria menos flores no prado
E achava mais feio o Sol . . .
Porque tudo é como é e assim é que é,
E eu aceito, e nem agradeço,
Para não parecer que penso nisso . . .).
*
FERNANDO PESSOA
" O Guardador de Rebanhos
XXIII "
Alberto Caeiro
*
VIII
Na noite escreve um seu Cantar de Amigo
o plantador de naus a haver,
e ouve um silencio múrmuro consigo:
é o rumor dos pinhais que, como um trigo
de Império, ondulam sem se poder ver.
-
Arroio, esse cantar, jovem e puro,
busca o oceano por achar;
e a fala dos pinhais, marulho obscuro,
é o som presente desse mar futuro,
é a voz da terra ansiando pelo mar.
*
FERNANDO PESSOA
" D. Dinis "
*
IX
Todo começo é involuntário.
Deus é o agente.
O herói a si assiste, vário
E inconsciente.
-
À espada em tuas mãos achada
Teu olhar desce.
" Que farei eu com esta espada? "
-
Ergueste-a, e fez-se.
*
FERNANDO PESSOA
" O Conde D. Henrique "
*
X
Cessa o teu canto!
Cessa, que enquanto
O ouvi, ouvi
Uma outra voz
Como que vindo
Nos interstícios
Do brando encanto
Com que o teu canto
Vinha até nós.


-
Ouvi-te e ouvi-a
No mesmo tempo
E diferentes
Juntas cantar
E a melodia
Que não havia,
se agora a lembro,
Faz-se chorar.


-
Foi tua voz
Encantamento
Que, sem querer,
Nesse momento
Vago acordou
Um ser qualquer
Alheio a nós
Que nos falou?
-
Não sei. Não cantes!
Deixa-me ouvir
Qual o silencio
Que há a seguir
A tu cantares
-
Ah, nada,nada!
Só os pesares
de ter ouvido,
De ter querido
Ouvir para além
Do que é o sentido
Que uma voz tem.
-
Que anjo, ao ergueres
A tua voz,
Sem o saberes
veio baixar
Sobre esta terra
Onde a alma erra
E com as asas
Soprou as brasas
De ignoto lar?
-
Não cantes mais!
Quero o silencio
Para dormir
Qualquer memória
Da voz ouvida,
Desentendida,
Que foi perdida
Por eu a ouvir . . .
*
FERNANDO PESSOA
" Poesia "
*
XI
Pai, foste cavaleiro.
Hoje a vigília é nossa.
Dá-nos o exemplo inteiro
E a tua inteira força!
-
Dá contra a hora em que, errada,
Novos infiéis vençam,
A benção como espada,
A espada como benção!
*
FERNANDO PESSOA
"Afonso Henriques"
Os Castelos
Mensagem
*
XII
O poeta é um fingidor,
finge tão completamente,
que chega a fingir que é dor
a dor que deveras sente.
*
FERNANDO PESSOA
"Trova"
*
XIII
Nada sou, nada posso, nada sigo
Trago, por ilusão, meu ser comigo.
Mão compreendo compreender, nem sei
Se hei de ser, sendo nada, o que serei.
-
Fora disto, que é nada, sob o azul
do lato céu um vento vão do sul
Acorda-me e estremece no vedor.
Ter razão, ter vitória, ter amor.
-
Murcharam na haste morta da ilusão.
Sonhar é nada e não saber é vão
Dorme na sombra, incerto coração.
*
FERNANDO PESSOA
"Nada sou, Nada posso, Nada sigo."
*
XIV
"Guardador de Rebanho"1893
Pintor Silva Porto 1850/1893, Portugal.

Sou um guardador de rebanhos
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
-
Pensar uma flôr é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.
-
Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.
*
FERNANDO PESSOA
"Alberto Caeiro"
"IX"
O Guardador de Rebanhos
*
XV
O amor quando se revela,
Não se sabe revelar
Sabe bem olhar pra ela,
Mas não lhe sabe falar.
*
Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há-de dizer.
Fala parece que mente
Cala parece esquecer.
*
Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
Pra saber que a estão a amar!
*
Mas quem sente muito cala,
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!
*
Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar.
*
FERNANDO PESSOA
"O Amor, Quando se Revela"
*
XVI
Os antigos invocavam as Musas,
Nós invocamo-nos a nós mesmos.
Não sei se as Musas apareciam - 
Seria sem dúvida conforme o invocado e a invocação.
Mas sei que nós não aparecemos.
Quantas vezes me tenho debruçado
Sobre o poço que me suponho
E balido "ah!" para ouvir em eco,
E não tenho ouvido mais que o visto - 
O vago alvor escuro com que a água resplandece
Lá na inutilidade do fundo...
Nenhum eco para mim...
Só vagamente uma cara,
Que deve ser a minha, por não poder ser do outro.
É uma coisa quase invisível,
Excepto como luminosamente vejo
Lá no fundo...
No silencio e na luz fala do fundo...

Que Musa!...
*
ÁLVARO DE CAMPOS
"Musa"

(Mais Poemas . . . "O CANTO. . .do encanto das . . .PALAVRAS"
pág. 189)
*

POETAS E FERNANDO PESSOA
*
Sophia de Mello B. Andresen
*
Teu canto justo que desdenha as sombras
Limpo de vida viúvo de pessoa
Teu corajoso ousar não ser ninguém
Tua navegação com bússula e sem astros
.No mar indefinido
Teu exacto conhecimento impossessivo.
-
Criaram teu poema arquitectura
E és semelhante a um deus de quatro rostos
E és semelhante a um deus de muitos nomes

("Celebridades" pág. XXX.)
Cariátide de ausência isento de destinos
Invocando a presença já perdida
E dizendo sobre a fuga dos caminhos
Que foste como as ervas não colhidas.
*
SOPHIA DE MELLO B. ANDRESEN

"Fernando Pessoa"
Livro Sexto








sábado, 4 de julho de 2009

061 - " OS ETERNOS MOMENTOS DE POETAS E PENSADORES DA LINGUA PORTUGUESA "


LUIZ MIGUEL NAVA
Nasceu, a 29 de setembro de 1957, signo de libra,
cidade de Viseu, Portugal.
Doutourou-se em " Filologia Românica" na Universidade
de Lisboa, Portugal,1980. Participou em várias
revistas e jornais.
Recebe o Prémio "Revelação de Poesia", 1978 . . .
*
CANTOePALAVRAS
Películas, 1979; A Inércia da Deserção, 1981;
O Pão a Culpa a Escrita(ensaio), 1982;
Como Alguém Disse, 1982; Rebentação, 1984;
O Céu sob as Entanhas, 1989 . . .
*
Não muita vez nos vemos, mas se poucos
amigos há para falar
dos quais me sirvo de relampagos, de todos
é ele o que melhor vai com a minha fome.
-
Os dedos com que tocou
persistem sob a pele, onde a memória os move.
Tacteiam, impolutos. Tantas vezes
o suor os traz consigo da memória, que não tenho
na pele poro através
do qual eles não procurem
sair quando transpiro. A pele é o espelho da memória.
*
LUIZ MIGUEL NAVA
"Não muita vez "
A Inércia da Deserção
ALEXANDRE PINHEIRO TORRES
Alexandre Maria Pinheiro Torres
Nasceu em 27 de dezembro de 1921, signo de capricórnio
Amarante, Portugal.
Escritor, professor . . .
Cursou Ciências Físico-Químicas, Universidade do Porto,
Letras, Ciências Histórico-Filosóficas, Universidade
de Coimbra, Portugal.
Professor da Faculdade de Cardiff, País de Gales, 1965,
em 1970, fundou a disciplina "Literatura Africana
de Expressão Portuguesa". Um dos fundadores da
revista "Serpente", participação ativa em revistas
como "Seara Nova" "Gazeta Musical", "Jornal de Letras e Artes"
Exilado pelo regime ditaturial, em Portugal . . .
Homenagens:
Prémio Ensaio "Jorge de Sena" Associação Portuguesa de
Escritores; P´rémio Ensaio "Ruy Belo", Portugal;
Prémio "Poesia", Associação Portuguesa de Escritores . . .
Faleceu em 03 de agosto de 1999.
*
CANTOePALAVRAS
Quarteto Para Instrumentos de Dor, 1950;
Novo Génesis, 1950; A Voz Recuperada, 1953;
O Neo-Realismo(ensaio), 1963;
Poesia: Programa para o Concreto(ensaio), 1966;
O Mundo em Equação(ficção) 1967; Ilha do Desterro, 1968;
A Terra de Meu Pai, 1972;
A Nau de Quixibá(romance), 1977;
Os Romances de Alves Redol(ensaio), 1979;
O Ressentimento de um Ocidental, 1981;
A flor Evaporada, 1984; Contos(romance), 1985;
O Adeus às Virgens(romance), 1992;
A Quarta Invasão Francesa(romance), 1995;
O Trocar de Século, 1995; A Ilha do Desterro, 1996;
Vai Alta a Noite(romance), 1997;
O Meu Anjo Catarina(romance), 1998;
Amor, Só Amor, Tudo Amor(romance), 1999 . . .
*
I
durante o dia o morcego é o rato
da caravela destroçada. Adora o seco
do tombadinho sótão de casa velha
Para proteger-se do Sol faz um chapéu
-
á volta da cabeça. Bate-lhe tão lento
o pulso que penso. A vida não lhe
dá demora. Força angulos travados
buscando a sombra água das costelas
-
Mal o Sol(mina em luz por e4ntre os
ossos) quer dormir encostado à nuca
do morcego. Vemos então que há alados
ratos de humano rosto e perfil grego.
*
ALEXANDRE PINHEIRO TORRES
"O Rosto das Caravelas"
A Terra de meu Pai
*
II
Uma árvore solitária de velocidade
escultural pisa o telhado da
montanha mas não voa além do
seu fumo. As asas que lhe ardem.
-
Apertam-me em seu torno. Se eu fosse
incomburente sob penas de amianto
mas a alma de um rio busca seco
o sonho da foz. A luz vem reunir
-
o exército inflamável das árvores
de petróleo e denuncia a secura
da solitária palha cujas chamas
não vão mais altas do que as telhas.
*
ALEXANDRE PINHEIRO TORRES
"Emblema"
A Terra de meu Pai

062 - " OS ETERNOS MOMENTOS DE POETAS E PENSADORES DA LINGUA PORTUGUESA "

"Meu Jardim" Foto LuisD.
*
JOSÉ PAULO MOREIRA DA FONSECA
Nasceu a 13 de junho de 1922, signo de gêmeos,
Rio de Janeiro, Brasil . . .
Poeta...
Homenagens: Premio "Jabuti", 1974.
*
CANTOePALAVRAS
Elegia Diurna, 1947; Poesias, 1949; Concerto, 1950;
Dois Poemas, 1951; A Tempestade e Outros Poemas, 1956;
Raízes, 1957; Três Livros, 1958; Seqüência, 1962;
Uma Cidade, 1965 . . .
*
I
É noite, estamos entre as sombras
e o ardor da lampada,
dois grãos de areia no imenso mundo; a janela nos mostra
Sírius, Orion, a Balança -
pouco me importam,
és tu que contemplo, tua luz me aclara
a alma envolta em tão escuro manto.
-
Deixa-me ver teus olhos,
neles acharei distância ainda mais longíqua
que a daqueles frios e noturnos fogos.
Vem a meus braços,
hei de sentir todo o pulsar da primavera
como quem tocasse numa flor.
*
JOSÉ PAULO MOREIRA DA FONSECA
" Luz e Trevas "
Três Livros
*
II
Nesta noite, no breve tempo desta noite,
que o mundo seja fiel aos nossos desejos.
O coreto - flor acesa - inunda a praça,
pouco importa que estejamos tão diversos
de nós de todo o dia
se este embuços de roupa e esta brisa na alma
dão-nos alento de viver eternamente.
*
JOSÉ PAULO MOREIRA DA FONSECA
" Festa "
Uma Cidade

"BIENAL, 2010"
 pintor Rodrigo Andrade, Brasil, Foto LuisD.

III
Antes do rubor da aurora
O teu vermelho canto se ergue em flamas
ferindo a noturna paisagem, mas tão rude e sofrego
Que dir-se-ia tudo perdido. E o repetes
E um novo cantar, ao longe, nos relembra a imensidão das sombras.
*
JOSÉ PAULO MOREIRA DA FONSECA
"O Galo"
A Tempestade

*
JOSÉ HELDER DE SOUZA
Nasceu e 22 de fevereiro de 1931, signo de peixes.
Massapé, Estado do Ceará, Brasil.
Poeta, escritor . . .
Participou da Academia Brasileira de Letras, 1984. . .
Faleceu em 07 de outubro de 2007.
*
CANTOePALAVRAS
A Musa e o Homem, 1959; Coisas e Bichos, 1977;
A Grandeza das Coisas, 1978; Os Homens do Pedregal, 1979;
Sonetos de São Luiz, 1981; De Mim e das Musas, 1982;
Cabo Plutarco o Berro d'Água, 1982; Relvas do
Planalto, 1990; Rio de Ventos, 1992; Pequenas Histórias
Matutas, 2000; Gestos de Adeus, 2001 . . .
*
Já se desvanecem as luzes
vistas, distantes, por entre
ramos de altas árvores
balançadas pelo vento,
nas agruras do crepúsculo.
-
Velozes se adensam
às sombras da noite agra
via de inauditos sonhos
em que as estrelas tentam
tremuluzir pelos esconsos
das nuvens tempestuosas,
mais negra se faz a noite,
raios cortam a escuridão,
ribombam trovões, a chuva
alaga a noite ingente,
inunda corações no temor
do fim a vir, a vida
se esmelingüindo sob as águas.
*
JOSÉ HELDER DE SOUZA
"Inundação"
"Aquário" Foto LuisD.

063 - " OS ETERNOS MOMENTOS DE POETAS E PENSADORES DA LINGUA PORTUGUESA "

*


 "Meu Jardim" Foto LuisD.
*
ROSA ALICE BRANCO
Rosa Alice da Silva Branco
Nasceu a 22 de dezembro de 1950, signo de capricórnio,
em Aveiro, Portugal.
Na "Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da
Universidade Nova de Lisboa", Portugal, doutourou-se
em "Filosofia do Conhecimento", 1990; "Faculdade de
Letras da Universidade do Porto", "Filosofia", 1978;
"Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto",
Portugal, Farmacêutica, e muito mais . . .
*
CANTOePALAVRAS
A Mulher Amada; Animais da Terra, 1988;
Monadologia Breve, 1991 . . .
*
Ser ombro e chama atravessada
na paciência da terra
-
cintilas tens rosto
e uma genealogia brave
entregue à leveza do tempo
Olho-te
olho o que resta na dispersão das asas.
-
em ti as palavras evaporam-se
culmina um silencio arcaico
incessante
A noite é interior
A lua desdenha outra luz.
-
deito-me em ti
esperança vegetal
Recolho o peso
a lei do pulso minucioso contra a carne.
-
as imagens entram no meu corpo
respitam
respiro a transparência das folhas.
*
ROSA ALICE BRANCO
" Esperança Vegetal "
Monadologia Breve
▬▬
DULCE MARIA CARDOSO
Nasceu em 1964, Fonte Longa, Carrezeda de Ansiães,
província de Trás-os-Montes, Portugal,
Escritora, advogada, cinema, fez direito na "Universidade
de Lisboa", Portugal. Morou em Angola . . .
Homenagens: Prémio "Acontece", 1999;
Prémio "União Europeia de Literatura", 2009. . .
*
CANTOePALAVRAS
Campo de Sangue, 2002; Os Meus Sentimentos,2005;
Até Nós(contos), 2008; Chão de Pardais, 2009 . . .
*
I
A quatro mulheres permanecem na sala. A senhoria tem
fome e propõe às outras uma ida ao refeitório mas ninguém lhe
responde. A mãe tem os olhos fechados e não vê o raio de Sol do
meio-dia que lhe aquece o regaço no qual descansam as mãos e
o rosário. A rapariga desapertou as sancálias e refresca os
pés inchados no chão de mármore pintalgado. Liberta das
sandálias que lhe marcaram a carne, coloca em pé de cada vez
num determinado mosaico e calca-o com força. Um funcionário
entra batendo com a porta e as quatro mulheres assustam-se.
O funcionário não é o mesmo que detectou o problema da
identificação nem o que as identificou. É outro, mas parece-se
com os dois primeiros que também são parecidos entre si.
Isto está muito atrasado. Nestes casos podem ir comer ao
refeitório, Têm aqui as senhas, estica-se para entregá-las, não
pagam nada. A ex-mulher mexe-se irritada na cadeira e recusa
a senha. Diz qualquer coisa que ninguém consegue perceber. A
Senhorita sorri para o funcionário e estende a mão com o mesmo
contentamento com que um cão recebe alimento do seu dono.
A mãe espera que chegue a sua vez, recebe a senha e guarda-a
sem mostrar agrado ou irritação. A rapariga que, com vergonha,
enfiara rapidamente os pés nas sandálias não quer não quer
aceitar a senha porque não gosta da comida da cantina. Diz
que quer comer no bar. O funcionário responde que as senhas
não dão para o bar e a rapariga insiste que tem fome mas não
gosta da comida de cantina, só o cheiro a enjoa. O funcionário
cala-se e a ex-mulher sorri quando a rapariga aceita a senha
contrariada. A ex-mulher sorri porque o seu dinheiro lhe
permite rejeitar o que não gosta.
O funcionário prepara-se para sair, mas a ex-mulher levanta-se,
aproxima-se dele, está tão perto que a sente a respiração na
face. Procura os olhos do funcionário e quando pergunta,
posso vê-lo, o funcionário afasta-se assustado com a voz com
os olhos da ex-mulher. A quem, a ele, ele está cá não está, o
funcionário continua a recuar, está apreensivo, não compreende
a ex-mulher que lhe procura os olhos, que respira demasiado
perto da cara dele, que lhe agarra o braço para o reter na sala.
Não são permitidas visitas fora do horário habitual,
mas eu quero vê-lo. A ex-mulher torna-se ameaçadora.
O funcionário recua,já está do outro lado da porta. Vou
perguntar ao meu chefe, mas no sítio onde ele está, parece-me,
arrepende-se, vou perguntar ao meu chefe. Parece-lhe o quê,
parece-lhe o quê? vou falar com o meu chefe e já informo.
A rapariga que se descalça novamente para colocar os pés
nos mosaicos frescos pergunta, eu não tenho que o ver pois não,
a ex-mulher vira-se com tanta violência que bate sem querer no
joelho da mãe. A mãe abre os olhos, mas desvia-os
imediatamente para a janela do saguão, suspira e torna a baixar
a cabeça, fecha os olhos, não quer saber o que se passa na sala,
não quer estar ali ao contrário da senhoria que apesar da aflição
que finge deseja que alguém discuta, que se bata, se acontecer
alguma coisa o tempo passa mais depressa e sempre tem alguma
coisa que contar aos hóspedes ou a algum jornalista que
apareça, a senhoria lamenta que os jornais já se tenham
esquecido do crime de sua pensão, tem esperança que se tornem
a lembrar no julgamento, talvez marquem de novo entrevistas,
a fotografem, talvez lhe fixem a voz naqueles gravadores
pequeninos, a senhoria gosta dos jornalistas, respeita o
trabalho de quem pergunta tudo, de quem está disposto a
ouvir tudo, de qualquer maneira o sítio onde o críme
aconteceu continua intacto, a mancha de sangue, quase um
altar, ainda está tudo como aparece na televisão, a senhoria
tem pena que o prédio seja demolido e que nessa altura
termine tudo. O funcionário aproveira para se libertar da
ex-mulher. Quando é que posso ver, ainda pergunta mais
uma vez, mas o funcionário retira-se e os passos ecoam no
corredor iluminado pela clarabóia, de longe o funcionário
recomenda, os filetes não estão grande coisa, as bifanas
comem-se melhor, e assobia porque a primavera começou
e as árvores-de-Judas floriram.
*
DULCE MARIA CARDOSO
"Capítulo"
Campo de Sangue

 "Meu Jardim" Foto LuisD


FÁTIMA PARENTE
Maria de Fátima dos Santos Parente Ferreira
Nasceu a 29 de novembro de 1935, signo de sagitário
Mondim de Basto, norte de Portugal, mais precisamente
Trás-os-Montes, Portugal.
Veio para o Brasil, depois Angola Benguela, vindo depois
Para o Rio de Janeiro, Brasil.
considerada a "Mulher do Ano da Comunidade
Luso-Brasileira" . . .
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CANTOePALAVRAS
Delírios, 1998; Semenhanças, 2001; Altern'Ânsia, 2004;
Fátim'Árias, 2005 . . .
*
Um dia quando a terra
for meu chão, serei
semente ou grão?
-
Não serei flor nem
botão, apenas pó da
natureza irmão.
-
No túmulo talvez,
alguém vá rezar.
-
Chorar não, sou pó sem
raiz nem tronco no chão . . .
-
Entre os ciprestes tão mudos
como sombras espectrais, os
silêncios dizem tudo dos que
já não vivem mais.
-
Pirilampos pela noite são
estrelas tumulares, acendem
nas sombras risos dos vivos
em seus lugares.
-
Ninguém morre na verdade, é
só a transformação.
-
Natureza inovadora, artista da
criação, que do pó d[a vida à
vida!
Numa outra dimensão.
*
FÁTIMA PARENTE
"Lápides"
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MARIA VELHO DA COSTA
Nasceu em 26 de junho de 1938, signo de cancer.
Lisboa, Portugal.
Escritora, Tv, teatro, tradutora . . .
Formada em "Filologia Germânica". . .
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CANTOePALAVRAS
Lugar Comum, 1966; Novas Cartas Portuguesas, 1972;
Revolução e Mulheres, 1975; Cravo, 1976;
Casas Pardas, 1977; Da Rosa Fixa, 1978;
Lucialina, 1983; Das Áfricas, 1991 . . .
*
Dentro da caixa o lápis roído, pousado
no trapo manchado de amarelo, sobejos de
aguarela da última composição geométrica
de girassois. A caixa perdida entre os livros,
desfeito o acesso de ordem de dois dias antes.
Por cima a tampa de madeira encerada, ris-
cada das fórmulas dos últimos pontos escri-
tos, da única letra que Lurdes conhecia do
alfabeto grego. Apoiados à tampa, os coto-
velos agudos e o externo mal coberto da
pele, das hesitentes formas de uma puber-
dade infindável e de tecido azul, sulcado de
tinta da China, fantasiado de cabecinhas, es-
perando a lavagem de sábado próximo. Em
torno de Lurdes sentada, carteiras, bibes
azuis. Carteiras e bibes diferenciados pelos
corpos que apoiavam e continham, cujos
significados se interpenetravam, tais como
a indissolúvel ligação de Teresa à posição
firmente perpendicular da sua carteira
intacta, à sequência exacta dos seus três lápis
esmalatados de ponta a ponta, dentro de sua
caixa.
Caladas todas, com o rio à ilharga, lá bem
em baixo, depois da varanda de granito, da
Lapa, de Santos, depois do muro hirsuto de
guindastes da doca. Rio que Lurdes não via
agora, quieta no seu lugar do salão de estudo,
atenta à graça senhoril e pateta da habitual
"conferência" da Madre Prefeita. Esta falava
em frase curta e coloquial, num gostoso
acasalamento das construções castelhanas
com um português lisboeta, de gente muito
nova, de gente fina. As maneiras à mesa, os
namoros, as festas. Lurdes lembrou-se do
patético desastre que era, à mesa, a Infanta
da Espanha.
"Filhas mias, porque têm de dar o exem-
plo. Que vão a pensar os rapazes? Porque
não o fazem por mal. São coquetas, mas os
rapazes sentem de outra maneira. Ah, a
Madre Isabel me veio a dizer que estão
muito mal em a capela. Vamos a ver, filhas
mias, estamos na semana da Imaculada, um
pouco de domínio, filhas. Porque é muito
agradável chegar em casa e se sentar em
uma poltrona e tocar a campainha porque
as coisas estão longe. E depois os filhos se
ressentem. Podem começar a trazer as coisas
para o Natal para as pequenas da cataquese.
Rita, filha, tem que fazer a lista. Se lembrem
que Nossa Senhora sofriu muito nesta se-
mana, sabendo porque nascia o menino. E
não vão a festas durante a semana, filhas,
as professoras se queixam. Pois como vão a
trabalhar se estão cansadas?"
Se se fitasse longamente o crucifixo a
meio da parede quase branca, por cima do
estrado onde estava a freira, e se depois,
imediatamente, se encarasse a parede nua,
em outra parte, lá estava de novo uma man-
cha em cruz, esbranquiçada, com o corpo de
Cristo côr de fumo negro. Lurdes pensava,
exercitando assim a vista, que era aquilo um
fenómeno de óptica explicável, e ouvia simul-
tâneamente a freira, entretida, por aqueles
esgares de rosto e mãos, rindo com o riso
cheio de se ter licença.
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MARIA VELHO DA COSTA
(fragmento)
O Lugar Comum
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 "Natureza" Foto LuisD.

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AGUSTINA BESSA-LUIS
Maria Agustina Ferreira Teixeira Bessa
Nasceu em 15 de outubro de 1922, signo de libra.
Vila Meã, Amarante, Portugal.
Escritora, jornalista, teatro, e televisão . . .
Homenagens:
Prémio "Bodalo de Literatura"(Casa da Imprensa), 1966;
Prémio "Adelaide Ristoli"(Centro
Italiano Cultural de Roma), 1975; Prémio "cidade do
Porto", 1982; Prémio "seiva de Literatura"(Companhia
de Teatro Seiva Trupe, Porto); Prémio " Vergilio Ferreira"
(Universidade de Évora),2004; Prémio "Camões", 2004;
Prémio de Literatura do "Festival Grinzane Cinema"
(turim Itália), 2005 . . .
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CANTOePALAVRAS
Mundo Fechado, 1948(novela); Os Super-Homens(romance),
1950; Contos Impopulares(romance), 1951 a 1953;
Sibila(romance), 1954; Os Incuráveis(romance), 1956;
A Muralha(romance), 1957; O Susto(romance), 1958;
Ternos Guerreiros(romance), 1960; O Manto(romance), 1961;
O Sermão de Fogo(romance), 1962; As Relações Humanas,I,II,III
(romance), 1964 a 1966; A Biblia dos Pobres I,II(romance),
1967 a 1970; A Brusca(conto), 1971; As Pessoas Felizes(romance),
1975; Crônica do Cruzado Osb(romance), 1976; As Fùrias(romance),
1977; Fanny Owen(romance-histórico)1979; O Mosteiro(romance),
1980;Os Meninos de Ouro(romance), 1983; Adivinhas de Pedro
e Inês(romance-histórico), 1983; Um Bicho da Terra
(romance-histórico),1984; A Monja de Lisboa
(romance-histórico)1985 . . .
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I
Vento sul-sudoeste fraco; céu nublado. Tempo de miscaros.
Matérias orgânicas que alastram nos muros e nos fossos, bolores
negros, lodos, fungos, vidas persistentes, possuídas de uma
animação vegetal crescendo sobre a decomposição,
sobre a ruína, nos lôbregos refegos da terra, nos podres
esconsos, nos charcos parados, debruadosde lamas. Como
míscaros, os homens parecem brotar na rua, ressumar das
pedras, pardos e cor de azebre, cor de pão de rala,
com as suas faces vazias, as mãos que são como raízes
impregnadas de água. . .
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AGUSTINA BESSA-LUIS
"Míscaros"(fragmento)
Contos Impopulares
-
II
-" Quando passará? - perguntava a si próprio. Em vão
arredava a fimbria da cortina, e olhava. A vidraça,
onde aderiam as pequenas moscas dos estábulos, era
baça, como que porosa e penetrada de bolhas de ar. E a
rua era excêntrica, isolada, poeirenta, com margens de
terrenos baldios onde cresciam, como abertos ponteagudos
em miniatura, arbustos calcinados; a múltiplas flores
bravias rompiam das valas, fulgutantes e apenas perceptíveis.
Quando passará, quando virá o cortejo?"- perguntava.
Ali estava desde a madrugada, procurando divisar o cortejo
que desceria das bandas da cidade, com suas flâmulas
brilhando e voando, enchendo o horizonte de cores
inesperadas e palpitantes. Alongou-se o dia, as sombras
mudaram de lugar; os cães de pastor trotavam circundando os
campos, vigiando os rebanhos. A rua, deserta, com suas velhas
paredes que se desmoronam, mantidas ainda pelas garras das
heras e a aglomeração dos silvados. "Quando virá o cortejo,
quando será?" Cansado , ele inclina um momento a cabeça
sobre o parapeito, e adormece. Não por muito tempo, não por
muitas horas. Quando volta a arredar a orla da cortina, a
olhar pela janela a rua desamparada que se perde na distancia
entre arbustos calcinados e flores apenas perceptíveis, ainda
que fulgurantes, ele, perplexo e inquieto, indaga de si próprio:
"Já teria passado o cortejo, quando teria passado?!" Abre
a janela, e os vidros, mal seguros pelo betume ressequido,
caem no chão, sem ruído, sobre a poeira. Todo o solo parece
revolto, e um tastro de pegadas como que ondula e se
entrecruza e se perde, por fim, varrido nos turbilhões de
pó. Ele experimenta na boca, ao respirar, o sabor áspero
e absurdo desse pó. Depois, fecha a janela, e, por detrás das
vidraças partidas continua a esperar.
*
AGUSTINA BESSA-LUIS
"O Cortejo"
Contos Impopulares
-
III
Um caminhante que passava à margem dumas ruínas foi
cair num velho poço esgotado pela estiagem. então,
sepultado num matouço de camarinheiras que cresciam
no fundo meio arenoso, e respirando o ar vaporizado
que se encontra na proximidade das nascentes, pôs-se a
considerar a situação. As pedras, veiadas de ferro, estavam
deslocadas, e nas brechas entaizavam-se os juncos e as
plantas dormideiras. Uma sucessão de sombras ondulava
na borda do poço, como vultos que hesitam e se entrecruzam.
-Olhem cá!- disse, debaixo, o tal, que continuava prostrado,
a modos de protesto. - Tenho tão pouco tempo para
esperar! Vamos, triem-me depressa daqui!
Ninguém lhe respondeu.
-Salvai-me- gritou, com voz desvairada. Ergueu os braços
e pôs-se a implorar auxílio e a rogar piedade, insinuando
promessas, votando a sua alma às forças que o libertassem
daquele antro silencioso. Ninguém lhe respondia. E ele
passou a injuriar as sombras que, acima de si, ora de
distendiam, ora se aglomeravam, como trocando alvitres e
segredos, disperdando-se em seguida em saltos bruscos,
para logo voltarem, dissimuladas. A voz reboava na
profundidade do poço. Lagatixas, que dormitavam no
limiar das suas luras, dispararam num rabiar vertiginoso,
fazendo desprender torrões de lama seca.
-Ainda me apedrejais, raça de cães! Quanto tempo tenho
de esperar para que se retirem e para que me esqueçam?
Até quando tenho eu de esperar?!
Tudo estava calmo. Telazinhas cintilavam, tecidas em
pentágono entre os juncos. As sombras dos espinheiros,
de recorte fugidio e quase humano, permaneciam sobre
o bocal do poço, como o seu movimento instável provocado
pela aragem.
*
AGUSTINA BESSA-LUIS
"De Profundis"
Contos Impopulares
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sexta-feira, 3 de julho de 2009

064 - " OS ETERNOS MOMENTOS DE POETAS E PENSADORES DA LINGUA PORTUGUESA "

"Tartaruga da Amazónia",
Zoológico de São Paulo, Brasil
 Foto LuisD.
*
PAULO MENDES CAMPOS
Nasceu a 28 de fevereiro de 1922, signo de peixes,
em Belo Horizonte , capital do Estado de Minas Gerais,
Brasil. Foi jornalista . . .
*
CANTOePALAVRAS
A Palavra Escrita, 1951; O Domingo Azul do Mar, 1958;
O Cego de Ipanema,(crônica), 1961; Homenzinho na
Ventania(crônica), 1962; O Colunista do Morro
(crônica), 1965; Testamento do Brasil, 1966;
Hora do Recreio(crônica), 1967 . . .
*
Que fazer de um instrumento,
Violoncelo, fonte, flauta,
A buscar um sofrimento
Que se encontra além da pauta?
Quando perdemos a voz,
Fala de nós e por nós
O personagem sem medo
Cujas palavras de olvido
Compõem o outro sentido
Do segredo de um degrêdo.
*
Tudo que rói e escalavra,
Dente de marfim do mar,
Faca do vento a passar,
Lembra a busca da palavra.
Só conhecer a ciência,
Mallarmaica paciência,
Capaz de achar a vogal
Que surde empós das toantes,
Escandidas consoantes
De uma pausa musical.
*
Estas horas perdoadas,
Perdidas de quem nos ama,
São aflições combinadas
Às pantominas do drama.
Um filamento de riso
Liga o inferno ao paraíso.
Se a noite esconde as estrelas,
Pode um palhaço brilhante
Dar um salto tão distante
Que seja digno de vê-las.
*
Esse arlequim de pintura
Vai surgir aqui, apenas
Compare a sua figura
As minhas roupas terrenas.
Vão surgir do saltimbanco
Perfil, fronte, face e flanco.
Vou sofrer por artifício
O silêncio desta mesa
Que me exila na clareza
De meu puro sacrifício.
*
Recife em mar de presságio,
Um poema não tem porto,
Vaga que devolve o morto
Às areias do naufrágio.
*
PAULO MENDES CAMPOS
"O Poeta no Bar"
O Domingo Azul do Mar

  "Cão Nó" Foto LuisD.